Um blog para para todos que são ninguém

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A ORIGEM





A origem é uma ideia que obseda os seres humanos. E quando digo obseda, creio que o leitor sinta aquele misto de estupor, graça e incômodo que toda palavra anacrônica revela. E o faz não por ela ser nova, mas justamente por ela ser antiga a perder de vista – original. Eis o óbice da questão. Pascal dizia que se formos rastrear a origem de nossas ideias, teríamos que o fazer ao infinito. E ao fim deste percurso infinito, para a frustração dos obsequiosos e tenazes leitores, como o próprio truísmo da frase indica, não chegaríamos a uma eventual ideia original. Chegaríamos tão somente ao Nada. É por isso que o grande filósofo, não por acaso também matemático, vai criticar esse modo de raciocínio demonstrativo, que ele chama de “geométrico”.
Porém, não só de geometria vive a origem. Ela está incrustada onde menos esperamos. À espreita, onde sequer sonhamos. De tocaia, aguardando nosso primeiro cochilo para dar o bote. Pois vivemos constantemente em busca de origens: nossa condição atual, o desarranjo familiar, a decadência do casamento, a situação do país, um tumor, um problema respiratório, uma desilusão. Onde é que começou tudo isso que eu nem percebi? Sim. É essa incapacidade de perceber os começos que torna a origem mais misteriosa. Somos sensíveis ao fim. Sentimos o fim com a potência de um recém-nascido sugando sua primeira lufada de ar. Mas o fazemos justamente porque não percebemos algo essencial: a origem do fim. Quando vimos: ei-lo. O fim chegou. Instalou-se. Consumou. Deu cabo, como se costuma dizer. A uma fase. A um sentimento. A um projeto. A uma vida. Como diria Santo Agostinho em relação ao tempo: se não me perguntam o que é, sei. Se me perguntam, deixo de saber. O que passou, deixou de ser. O que não veio, ainda não é. O que é então o tempo? De onde vem a origem?
Por conta dessas sutilezas incômodas, a origem deu alguns excelentes assuntos filosóficos e científicos: origem do totalitarismo (Hannah Arendt), origem das línguas (Rousseau), origem da propriedade privada (Marx e Engels), origem das espécies (Darwin). O nosso clássico Raízes do Brasil não faz nada mais do que mascarar uma romântica defesa das origens, inspirada no organicismo e no vitalismo alemães, como demonstrou meu amigo historiador João Kennedy Eugênio, sob um termo ainda mais comprometedor: raiz. Essa esperteza cordial de Sergio Buarque de Holanda se chama: varrer a origem para debaixo do matinho. Mas não adianta. A origem volta. Sempre. A origem é indefectível. Indeclinável.
A origem foi o cerne da clivagem de poder durante muitos milênios, se pensarmos nas linhagens e nas dinastias reais. Bem como é o cerne da cultura patriarcal, dos patriarcas israelitas bíblicos à figura do pater familia, que o gênio Gilberto Freyre identificou como sendo o motor civilizacional dos trópicos, em especial do Brasil. Não tem como perder a vigência do dia para a noite. Tanto que muitos acreditam ingenuamente nas forças do poder popular, do século XVIII até hoje. Mas quando se fala em “origem popular”, em “origem operária”, em “origem rica”, em “origem humilde”, não estamos fazendo nada mais do que criar condições eletivas e morais para validar atos e pessoas como dignos e indignos. Apenas o fazemos não mais a partir de valores aristocráticos, mas mercadológicos e, em último caso, demagógicos.
Aliás, o marxismo foi e continua sendo profético e irretocável em relação a muitos aspetos estruturais de nossa realidade. Mas um dos pontos frágeis da teoria marxista é a absoluta insignificância que a origem individual desempenha em seu arcabouço. Trata-se de uma teoria da produção da riqueza e das relações de produção, mas que ignora quase sumariamente um dos corações do poder: a geração da vida. Ocupa-se da escola, da empresa, do hospital, da fábrica, dos manicômios, das cadeias, das mercadorias, do preço, ou seja, de todas as esferas da vida social e econômica. Mas não se ocupa do lar. Teoriza sobre o Estado e sobre o Capital. Mas ignora o ventre e a maternidade. Ao flagrar as relações de poder na dinâmica das relações de troca, trabalho, reificação e mais-valia, durante muito tempo a teoria marxista esqueceu de vislumbrar a mais óbvia de todas as produções: a de seres humanos.
Ao assimilar todos os dados da realidade como dados de uma construção histórica objetiva, e ao propor a noção de privacidade como a ilusão burguesa com a qual os senhores se blindam e ocultam os anteparos infraestruturais que lhes legitimam o exercício do poder, muitas linhas do marxismo deixaram em boa medida uma lacuna considerável em relação a tudo o que concerne à intimidade, ao lar, à vida interior, à gestação, ou seja, à geração da vida ulteriormente confiscável pelas cadeias produtivas. Não por acaso, a biotecnologia será o golpe mais devastador sofrido pela teoria marxista. Isso porque a biotecnologia consiste basicamente em um deslocamento radical nas teorias do poder e em uma translação da era política à era biopolítica. A partir dela, o poder vai migrar das relações de produção entre seres humanos para as relações de produção de seres humanos.
Mas além desses rigorismos, a ênfase na ideia de origem também originou (perdão pelo cacoete pouco original) algumas boutades curiosas, tais como: origem dos nossos hábitos à mesa, origem da alimentação, origem da troca de cartas, origem funcional dos polegares, origem dos sutiãs. Peças de mobiliário muito bem manejadas em um ensaio de Montaigne, La Boétie ou Hume, mas de gosto duvidoso quando esmiuçadas arqueologicamente. E ao falar em origem, impossível não pensar no seu símbolo máximo: a criança. A invenção da infância é uma das invenções de origens mais originais da modernidade. De um adulto pequeno, de um homúnculo com desenvoltura, de um anão passível de crescimento, nasce uma nova luz: a criança. Com ela, todo um vocabulário, um repertório, um imaginário, toda a diversão e todo aborrecimento do mundo, contido nesse pequeno novo ser, tão significante quanto inofensivo.
Claro. Para todos os povos a sua própria origem é o que há de mais elevado sobre a face da Terra. Dos lapões aos escandinavos, dos tapajós aos texanos, dos mineiros aos haitianos, dos tchecos aos suíços, dos nepaleses aos sul-africanos, dos bororos aos esquimós. Todo povo tem o seu poeta e o seu historiador oficiais, que narram a saga de martírio, glória e grandeza enfrentada por esse mesmo povo – em suas origens. Ao contrário do que se idealiza, essas origens tampouco são populares. Mas um fino artifício na tessitura de poder tramada pelos doutos e ilustres. Tudo não passa daquilo que o grande filósofo italiano Giambattista Vico chamou de boria dei dotti (vaidade dos doutos).
Todos querem ser a quintessência da humanidade. E o conseguem ao contar com a quintessência dispersa de si mesmos tanto em seus antepassados quanto em seus consanguíneos. Por isso, inventam origens. Provavelmente não houve grandeza alguma. Mas apenas uma luta pérfida por sobrevivência. Como a origem se perdeu, todos sabem que nada foi dessa forma. Mas agem como se fosse. Ocultam a verdade com uma dupla mentira. Felizmente. Parafraseando Oscar Wilde: o que seria do mundo sem a mentira? Nasce daí o mito. Como diz Eliade, os “mitos de origem” são as mais poderosas forças de coesão social para os povos tradicionais. Pois mexem são a espinha dorsal de sua autoimagem. Diríamos hoje: de sua autoestima. Ou seja, lidam com o que há de mais poderoso e devastador no ser humano: a vaidade.
Da origem humana à origem do universo, da origem dos povos à nossa origem divina, abre-se um abismo. Sim. Impossível acessá-las. Sabemos. Mas diariamente não temos pudor algum em nomear nossos antepassados de Órion, nossos ancestrais celestiais, nossos irmãos símios, nossa família animal, nossos avôs biológicos e nossos pais espirituais. Seja descendendo das estrelas (como queria Platão), seja de Deus (como querem os religiosos), seja do macaco (como queria Darwin) ou das bactérias (como rezam os geneticistas), o homem respira cotidianamente uma compulsão pela origem. Vive de sua fabricação. O dia que a usina da origem pifar, estaremos perdidos. Será de fato a morte. Não do indivíduo singular. Mas da espécie. Porque o homem, talvez por ser o mais mentiroso e mais mimético de todos os animais, por pura sobrevivência, teve que criar para si a maior de todas as mentiras jamais criada: a ideia de que existe uma origem. E que podemos vê-la. Tocá-la. Narrá-la. Vivê-la.
O Ocidente se enganou durante milênios atribuindo à vida após a morte a chave do segredo e a explicação final da nossa saga de miséria e esplendor sobre a Terra. Muitos orientais, especialmente algumas religiões indianas, são mais discretos e mais ambiciosos em sua formulação. Sabem que o grande enigma não está depois da morte, algo positivamente impassível de verificação – mas antes da vida. Não se trata de sabermos para onde vamos, mas sim de onde viemos. Ou melhor: como e quando viemos a ser. É no que fomos e não no que seremos que reside a explicação última do que somos.
Essa explicação pode ser apenas mais uma ficção útil dentre tantas outras ficções. Mas tem uma vantagem. A ilusão de um começo, em sua dupla irrealidade, acaba sendo ainda mais irreal e impalpável do que as ilusões do fim. E por isso, paradoxalmente, mais verdadeira. O além-vida pode ser mensurado em termos hipotéticos. Justamente por isso, está sujeito a erro. O aquém-vida só pode ser descrito em termos puramente ficcionais. E, exatamente por isso, pode ser mais ou menos verossímil, mas nunca errado. A odisseia reencarnacionista, ao conceber o real como pura ficcionalização, acaba nos concedendo uma lucidez mais penetrante do que todas as mitologias que projetam a nossa eternidade em um plano futuro, por meio daquela “colonização do além”, bem lembrada por Le Goff.
Trata-se de dois regimes distintos de verdade. Como ambos são umbrais inacessíveis, entre a hipoteca do futuro e ficcionalização da origem, esta é muito mais sublime do que aquela. Na primeira, projetamos os dados da realidade em um futuro improvável, no qual este mundo que me circunda por fim vai se realizar, ou seja, finalmente vai ser o que é, fato sobre o qual repousa uma evidente tautologia. Na segunda, traduzimos a origem inacessível do mundo na forma mesma deste mundo que eu e você, leitor, habitamos, neste exato momento. A primeira vai da realidade presente à ficção futura, ou seja, torna a vida cada vez mais evanescente. Ao passo que a segunda vai do passado irreal ao presente tangível. Assim, ao conferir uma explicação ficcional à realidade, torna a ficção cada vez mais imperativa e a realidade cada vez mais espessa.
Ver o mundo como um teatro no qual as origens intangíveis de nossas vidas se desfiam a nossos olhos como um novelo é mais sublime do que projetar estas nossas vidas concretas em um futuro construído hipoteticamente a partir de uma realidade cujos dados e cuja origem desconhecemos. Tal como aquela peça de teatro à qual entregamos nossa vida no intervalo de duas horas, iluminar o caráter arbitrário, casual, gratuito e fictício que subjaz a toda origem: talvez seja exatamente esta a lucidez que falta a todos os adoradores do futuro, seja este futuro utópico ou sobrenatural. É também o que falta a todos os inventores de origens que não se dão conta do quão artificial é a sua invenção. Pois se os adoradores do futuro invariavelmente se frustrarão com o presente que os aguarda, os inventores de origens, no fundo, sempre acabam acreditando nas mentiras que um dia contaram para si. 

domingo, 22 de janeiro de 2012

SÓ NA DÚVIDA HÁ SALVAÇÃO

Se você acredita na liberdade individual, você tem um motivo forte para assistir ao filme A Separação, de Asghar Fahardi, mais uma obra-prima do cinema iraniano. Se você acredita que a liberdade individual é apenas mais um mecanismo ilusionista do capitalismo avançado e da hipermodernidade, que nos oculta os verdadeiros problemas do mundo em que vivemos, então você tem um duplo motivo para assistir a esse filme notável, excelente sob todos os aspectos.


Simin decide deixar o Irã para dar um futuro melhor para a filha Termeh, mas Nader, seu marido, resolve não acompanhá-la porque precisa tomar conta do seu pai, com Alzheimer. Simin volta então para a casa dos pais e Termeh  prefere ficar com Nader. Para ajudá-lo a cuidar do seu pai na ausência da esposa, Nader contrata Razieh, que está grávida. Por razões culturais e religiosas, embora sistematicamente preso e perseguido por credores, o marido desta jamais permitiria que ela trabalhasse numa casa em que a esposa não estivesse presente. E por razões religiosas, tampouco poderia dar os cuidados necessários ao velho doente. Razieh então aceita o emprego às escondidas do marido.




E é a partir desse pequeno ocultamento que se desdobra uma infinidade de equívocos que culminam nas acusações de Razieh e de seu marido contra Nader e sua família. E os incidentes se precipitam à exaustão, intensificando-se a cada novo engano e ganhando proporções quase trágicas a cada nova revelação de uma mentira. Nessa vertigem entre coisas ocultas e reveladas, entre equívocos e inconsciência, os fundos religioso, cultural, legal e político vêm à tona. Porém, mais como elementos adicionais de conflito do que como forças pacificadoras.

O filme de Fahardi é um golpe duplo. Mira sua artilharia nas formas grotescas de controle burocrático da vida levadas a cabo pelo Estado. Mas acaba fazendo também uma análise devastadora das miragens liberais e da pseudoautonomia das ações individuais humanas. Nesse sentido, é um filme contra toda forma de heteronomia política, ou seja, contra toda crença segundo a qual deveríamos depositar nossas expectativas e alienar nosso destino em mãos alheias.
Por isso seu enredo destrói toda crença na validade de instâncias externas às relações humanas imediatas, entendidas como formas reguladoras e apaziguadoras dos conflitos, sejam essas instâncias o Estado, a burocracia legal ou mesmo uma lei religiosa. Mas também é um filme contra toda forma de idiotismo emancipacionista, contra toda crença em valores privados. Ou seja: contra toda crença em valores não-políticos. Afinal, como diziam os gregos, o idiótes nada mais é do que o homem privado, em oposição ao homem de Estado ou público, ou seja, aquele que contempla o próprio umbigo e vira as costas à polis.
Dilacerados entre a atitude evasiva daqueles que querem simplesmente abandonar o país (Simin) e a força cega dos que estão escravizados política e economicamente em suas entranhas (Razieh e o marido), Nader e a filha Termeh representam, no plano individual, uma consciência agônica. Por outro lado, em sentido amplo, encarnam um Irã dividido entre a tirania estatal e a inviabilidade de uma plena adoção dos modelos das democracias liberais. Ou seja: o filme se realiza no fio de navalha de uma inviabilidade tanto política quanto moral. É um canto de cisne entre duas mortes. Um arco-íris entre dois nadas. E como chave de ouro, seu final enigmático apenas adia a resolução dessa aporia, colocando-a nas mãos do espectador.
Como toda grande obra, o filme de Fahardi se move nos limiares entre a fé e a dúvida, desdobrando-se em um labirinto de conflitos sociais e morais que, de maneira sutil, acaba adquirindo até tonalidades metafísicas. Um fino ensinamento se revela em suas imagens: a vida real é uma alternância agônica de equívoco, desconhecimento, incomunicabilidade e silêncio. Não há meio termo possível entre a fuga e a humilhação, entre o exílio e a arbitrariedade. Tudo o que queira ocultar ou resolver as contradições e os paradoxos essenciais à nossa condição será uma forma de tirania – ou de evasão. Sejam essa tirania ou essa evasão em nome de um Estado ou do nobre exercício de uma hipotética liberdade individual. Não importa. Afinal, com sua análise aguda, Fahardi nos mostra claramente que heteronomia e liberdade nada mais são do que as duas novas formas de domesticação do rebanho humana neste nosso início de século XXI. A Oriente e a Ocidente.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

PIRATARIA COMO SOBREVIVÊNCIA


O projeto SOPA, versão em inglês da lei planetária antipirataria, mesmo tendo sua votação adiada, sem dúvida será implementado em um futuro próximo. Seus paradoxos são enormes. Mas mesmo assim ele vingará, sem dúvida. E essa nova forma de controle global de informação vai entrar em vigor justamente por causa da complacência da classe intelectual, que continua sendo condescendente com uma visão patrimonialista das produções materiais e simbólicas globais neste início do século XXI. Na verdade, enquanto não forem repensados os conceitos de propriedade e autoria, continuaremos navegando em espaços virtuais homogeneizados por valores fósseis, que se extinguiram no século XX. Defender esses valores sob o pretexto da preservação do indivíduo, da democracia, da obra, do valor, do patrimônio, dos bens e do direito não é nada mais do que trabalhar para garantir que outros usem aquilo que possuímos, mas que nós nunca possuamos aquilo que usamos. Enquanto não se repensar as leis em termos de valor de uso, em detrimento do valor de posse, continuaremos sendo aqueles que defendem como sendo seu tudo aquilo que nos alienaram, para que pudéssemos continuar vivendo. Continuaremos sendo os defensores de tudo aquilo que, embora sempre tenha estado a nosso alcance, nunca de fato nos pertenceu. 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

DEMO, CRACK & CIA


Sim. O problema do mundo são os mendigos. Na verdade, gostaria de falar do filme Hadewijch, de Bruno Dumont, ambientado nos dias de hoje, mas inspirado na vida da mística homônima do século XIII, e que passou na mostra de cinema francês que ocorreu em São Paulo esta semana. Mas me vi subitamente interpelado por uma série de artigos de jornal tratando do crescimento do consumo de crack, carinhosamente conhecido como “raspa da canela do diabo”. Como se sabe, os traficantes, como em qualquer iniciativa privada com fins lucrativos, controlam o ciclo da droga. Agora acabaram de aumentar o valor da grama de maconha de 2 pra 5 reais. Em um bom funcionamento capitalista, essa é a melhor forma de tirá-la do mercado. Mas, claro, a estória não acaba assim. Eles estão começando a mesclar pequenas doses de crack à maconha, para paulatinamente começar a formar seus futuros clientes. Os novos viciados em crack serão os atuais consumidores de inofensivos baseados. Esse é o projeto da década.
Seu filho ou sua filha, leitor e leitora, que gostam de queimar um baseadinho no Centro Acadêmico da universidade, sabe? Então. O demônio mora ao lado. É banal como um baseado. Já dizia e continua dizendo minha avó, que Deus a tenha. E olha que ela nunca leu Hannah Arendt. Em termos logísticos, o crack é quase igual à cocaína. Em termos de lucro, a balança pesa desfavoravelmente: 300% de lucro na coca, 200% de lucro no crack. Mas não se engane. Isso se compensa em outras frentes. O que é interessante, na verdade, é ver como a distribuição dos números funciona. Porque a cocaína passou a ser droga de elite, e a maconha, droguinha de intelectual parasita. Então o crack tomou imensas projeções na balança comercial. Podendo atingir potencialmente classes que vão de A a E, tem um público consumidor virtual de 164 milhões de brasileiros. Exatamente isso. Mais de 90% da população.
Neste momento, levanto-me da cadeira e vou à sacada. Leitor, moro no Largo do Arouche, centro de São Paulo. Na minha porta, todos os dias, moleques caídos, mendigos atravessados, neuras na fissura. Olho pela janela, e tudo dorme. Alguns trapos humanos vagam pela rua. Uns zumbis, com seus cobertorzinhos. É muito comum no centro de São Paulo esses trapos vagarem assim, ainda mais agora, que é madrugada. Uma pedra de crack, e você já está na nóia, no vício. Como a heroína, não há usuário de crack. Só há viciados. Porém, é muito diferente, um pobre-diabo desses, trapo do capeta, vagando na noite, e um drogado que tenha estrutura. Lembra do seu filho? Falando de Marx, de libertação sexual, de surrealismo, no Centro Acadêmico? Então.
Nesta mesma semana, uma longa matéria sobre Billy Clegg, agente literário em Nova York, com carreira brilhante junto às mais importantes editoras dos EUA. Acabou de escrever sua autobiografia, na qual narra a sua passagem por mais de um ano numa clínica de desintoxicação. Orgias, rituais macabros, quase-morte, estado vegetativo. Clegg chegou ao fundo mais pardacento do poço, com consumo diário de várias doses de crack. Não chegou à morte, convenhamos, porque tinha estrutura. Estrutura. Essa é a palavra. Estrutura. A mesma estrutura que o filho do querido (ou querida) leitor (ou leitora) tem. A estrutura que o maldito cara que observo agora pela janela, arrastando seu cobertorzinho fedido, não tem. Azar o dele. Então. Vejamos. O filho ou a filha da minha querida ou querido leitor estão fumando seu baseadinho em paz. Eles são progressistas, desinibidos, já passaram por n revoluções sexuais. Coisa de 68 é passado distante. Hoje em dia o que rola são surubas cultas com os colegas e drogas variadas: ecstasy, LSD, pó, haxixe. Nada de ideologia. De romantismo revolucionário. Felizmente. Ao menos nisso, o progresso existe. E presta. Trepar sem ideologia foi o primeiro grande avanço da humanidade. Trepar sem amor está sendo o segundo. Depois, vão se dedicar a alguma profissão liberal, seja nas ciências humanas, nas exatas, no direito, na medicina ou que tais. Eles têm escolhas, e as realizam. Leitor, isso se chama: cidadania. Eles têm a escolha da profissão, assim como têm a escolha de votar nos nossos representantes. Representantes, ouviu? Eles têm a escolha de beber uma cerveja, de tomar uma coca-cola ou de fumar um baseado-pedra. Quantia mínima. Você nem percebe, cara. E dá uma brisa boa. Leve. Diferente. Escolha. É esta a palavra. Quanto mais opções de escolha, mais democracia.
Entretanto, façamos uma estatística em nada assombrosa ou mirabolante. Se o público-alvo do crack está projetado em torno de 160 milhões de pessoas, obviamente isso é uma estimativa meramente numérica. Disso se excluem todos os aposentados, donas-de-casa, avós, avôs, religiosos, padres, crianças, virgens, debutantes, energúmenos, doentes, parasitas e tantos e tantos quejandos. Chutemos a cifra de 20 milhões de usuários em potencial, 1/8 do número original. Que metade deles (10 milhões) seja mais efetiva enquanto usuários, e que 1/5 (2 milhões) desta cifra o seja de fato. Não serão usuários de crack puro, obviamente, querida leitora. A senhora acha que seu filho se parece com esse trapo humano que olho pela janela? Está ficando louca? Justo seu filho, que sabe línguas, fez estágio no exterior, balé, piano, natação, ginástica olímpica, e que hoje fuma placidamente seu baseadinho na universidade? Que coisa. Quem diria, seu filho, de trapinho nas costas, todo vegetal, se arrastando, entre merda e urina, no esgoto das noites, no centro de São Paulo? Aqui, justo na minha calçada? Então.
Como amante incondicional das palavras, nunca entendi por que a palavra demônio e democracia têm a mesma raiz. Os manuais escolares nos ensinaram direitinho: democracia é a cracia do povo, o governo do povo. Mas o que o povo tem a ver com o demo? Mais que isso, nunca compreendi por que a palavra demo, sozinha, quer dizer algo de consumo fácil, gratuito, distribuído para teste. É o seu sentido de povo. Mas e o seu sentido de Demo, Capeta, Fuinha, Cujo, Dito, Diabo, Caititu, Fominha, Abutre, Nego, Pindéu, Banguela, Satanás, Ó, Cabrito, Belzebu? Pensei logo que essas coincidências tinham sido invenção de algum neonazista. Ou de algum Capeta. Mas não. Como dizia minha avó, que nunca leu Hannah Arendt, o demônio mora ao lado. É tudo uma questão de escolha. De opção. A democracia é demo, porque é uma oferta quase gratuita, sempre à mão. Um sem-número de possibilidades. E de escolhas. Quase grátis. Demo. Escolha. Essa é a palavra, leitor. Memorize. A democracia é demoníaca, porque lida com a liberdade humana como quem lida com um manual, com uma bula, com um antibiótico, com uma pomada, com um revólver, com um tônico capilar, com um absorvente, com um guia de ruas. Na planificação democrática, tudo assume função de projeto a ser efetivado. Tudo tem um destino, como se tivesse um desígnio. Que bom, assim temos acesso aos bens de consumo, não? Ventiladores, celulares, GPS, cigarros, pornografia, prostitutas, maconha, crack. Já pensou, 2 milhões de usuários de crack soltos pela rua? Mesmo em um país desse tamanho, na concentração de uma grande metrópole, isso seria um arrastão de zumbis por todas as ruas e avenidas centrais. Mas esse arrastão já existe. E talvez exista um batalhão de futuros pedreiros (como são carinhosamente conhecidos) nos bancos universitários. Futuros assassinos? Não só da ridícula esquerda liberal. Mas também executivos e estelionatários de luxo. Futuros pedreiros. Todos eles são os moleques aqui da minha porta, leitora. Mendigos e demônios. Todos: Demo. Esse lixo humano, fedorento, que eu detesto. E detesto mesmo. Escória. Asco. Lixo humano. Resto biológico. Sobra das fezes de algum plebeu. Isso que eles são.
Então. O filme de Bruno Dumont fala de uma figura extremamente pura, que devotou sua vida a Cristo. Virgem. Ela não consegue tocar em um homem. E se diz amante de Deus. Amante de Cristo, em carne e osso. Amante. Simplesmente isso. A atriz, amadora. Não profissional. Amante. Filha de um ministro francês, é uma menina de alta sociedade.  Não suporta a família. Nenhuma indireta pra você, leitora. Só estou narrando o filme. E então ela se interna em um convento. E o convento a expulsa. Vai encontrar Deus nas ruas – diz a freira. Ela não encontra Deus nas ruas. Encontra o demo. O Islã. Envolve-se com dois irmãos árabes. Um, bandidinho desnorteado. Outro, futuro homem-bomba. Um, falso religioso. Outro, verdadeiro. E em plena missão. Ela segue o religioso verdadeiro, correto? Sim. Porque ela é verdadeira. E no nosso tempo parece que a verdade sempre tem algum compromisso com o Mal. Não está a fim de meias-verdades ou de planos quinquenais. Tipo a sua família, bolsa-escola, ministros, baseadinhos em universidades, conversas fiadas, orgias, papos progressistas, esquerdismo liberal, PT, falta de vergonha na cara, ONGs, lixo marxista, besteirol intelectual, vagabundagem. Claro que sim. Depois da conversão, todos os preparativos para o que fica em suspense: ambos se explodirão no metrô de Paris. Quanto mais próxima do Terror, mais ela fica bela. Mais cresce como mulher. Então, leitor, será que seu filho vai estar com a moçada da uni nessas férias na França? Ou será que vai estar aqui na porta da minha casa? Não. Não. Acho que ele não viajou com os colegas maconheiros nessas férias pra Europa.
Hadewijch encontra Nassar no metrô. Ambos de jaqueta. Como são tristes as fisionomias no metrô, não? Como são tristes os dias repetidos de nossa rotina, essa rotina, espécie de arte de conduzir à morte com sussurros e palavras brandas. É isso: democracia. Império da Escolha. Liberdade do Demo. Cadeia de Satanás. Se Tudo é permitido, Nada é permitido. O Absoluto da Liberdade é o Absoluto da Opressão. Ainda não caiu a ficha, truta? Salve São Marquês de Sade! Padroeiro da modernidade. Seria isso? O pacto com o Cujo, lembra? Não é no redemoinho, não. Na encruzilhada. Não. Não é no fundo sem fundo do Inferno de Lúcifer. Não é com o titânico Satã de Milton. Não é fáustico. Nem mefistofélico. O pacto com o Demo. Escolha. Democracia. Opção. Liberdade. Crack. Cracia do demo. Isso. Palavras brandas. Opção. Escolha. Dá um trago desse seu baseado, truta? Canela do Demo. Cracia do Crack. Arte de conduzir ao túmulo. Não com palavras gregas, como dizia Hipócrates. Mas com palavras suaves. Dir-se-ia quase doces. Como as fezes do menino na sarjeta, queimando uma pedra, agora, de madrugada. Como as doces manhãs de Paris, à margem do Sena. Enquanto o metrô não explode. Enquanto o metrô explode. Explode. Bem debaixo do Arco do Triunfo. O metrô explode.
Ato contínuo, Hadewijch aparece no convento. Cristo a salvou do suicídio? Estaríamos vendo sua alma? Em que plano se passa a ação? Ou ela desistiu no último segundo e correu, porta afora, antes da explosão? Nada se explica, como em todo bom cinema. Mas ela não suporta. Viver entre vermes, entre gente pardacenta, de meias-verdades, meias-patacas, meias-palavras. O meio-termo é uma ilusão dos sentidos, dizia eu outro dia a mim mesmo, em um momento de pura filosofia. Sim. Resta o suicídio. Nem mosteiro, nem rua. Nem casa, nem sarjeta. O meio-termo é uma ilusão dos sentidos. Sim. Na larga campina, no bosque do mosteiro. Ofélica, ela se lança, no lago. Afunda. Afunda. Gruda-se às raízes das árvores, submersas, álacres. Mas uma figura surge do fundo para desfazer o equívoco. Salva-a. É o carpinteiro. Acabara de sair da prisão. Homem de dentes podres, comidos pela vida. Semblante aceso. Tranquilo. Puro. Parece um animal em sua docilidade. O abraço de ambos sela um novo pacto. Fim.
Vou à janela. Penso: o novo pacto é a conivência com a fatalidade? É a aceitação de nosso destino miserável? Esse foi o pacto de Hadewijch? Primeiro com o Terror, desfeito? Depois com um pobre-diabo, consumado? Mas este não seria o demo? Ou seria Cristo, em sua mais abjeta (e bela) humilhação? Ela fez o pacto com Cristo, o Artífice da Glória? Ou com apenas mais um carpinteiro? Com um qualquer? Seria um pacto de glória, não de perdição? Seria essa figura bruta o emblema da nossa triste precariedade? Mas então era isso o Cristo que ela tanto amava? Vou de novo à janela. Atônito. Nervoso. Hesitante. Mais um trapo, sombra, fezes, fedor e nojeira. Corre de um lado pra outro, em alucinações. Não. Não. Não posso interromper minha missão nesse momento. Aperto o cachimbo e pingo dois gramas de veneno. Desço as escadas, escuras, paulatinamente. Ao sair, ninguém na rua. Só vultos e fantasmagorias do que virá a ser o amanhã. Vem cá, meu irmão. Vem cá, brother. Eu posso te ajudar na sua fissura. Segura aqui. Essa é na faixa. De cortesia. Ele acende a brasa do cachimbo e cai estático. Arrasto o corpo para o lado, pra não atrapalhar a passagem. Afinal, logo amanhece. É preciso deixar espaço pros pedestres. Levarão junto com o lixo. Democracia. Pedestres. Opção. Escolha. Fiz por amor. Foi por amor ao seu filho, leitora. Quanto antes, menos sofrimento. Faço o sinal da cruz. Volto para casa. No céu, a lua crescente do Islã. O problema do mundo são os mendigos. 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

ANTROPOLOGIA E ANTROPOFAGIA


O ÚLTIMO HOMEM

O Apocalipse será a suprema realização da espécie humana.
René Girard


A Corda
De acordo com a famosa sentença de Nietzsche, o homem é uma corda atada entre o animal e o além-do-homem – uma corda sobre um abismo. Quando a formulou, seu intuito era mais filosófico do que literal. Queria definir o humano como algo não substancial em si e por si, como o lugar onde se realiza a ultrapassagem de toda determinação moral, cultural, metafísica ou biológica, como algo, enfim, que só existe enquanto contínua excentricidade. Não queria sugerir desdobramentos práticos de sua afirmação. Por isso, provavelmente ficaria surpreso se visse a rapidez com que ela pode vir a se tornar realidade.
Se analisarmos sua frase mais a fundo, constataremos o seu teor paradoxal. Saltará aos olhos a verdade que ela oculta ao se desvelar enquanto verdade, para usar a maiêutica desvelante-oclusiva de Heidegger. Se só existe humanidade à medida que há ultrapassagem do humano pelo homem, entendido como corpo biológico e alma metafísica, então o além-do-homem profetizado por Nietzsche está em plena via de realização. E isso começa a ocorrer não com a extinção dos seres humanos reais, entendidos como espécie, mas sim por meio da extinção do conceito de humano, que talvez sempre tenha sido e provavelmente sempre será demasiado humano. Ao contrário do que queria Nietzsche, essa superação não está se dando por um ato de transcendência, por meio do qual o espírito supere em si todo constrangimento metafísico e biológico, ou seja, toda a religião e toda a ciência. Realiza-se sim por uma paradoxal assimilação regressiva do humano pelo animal.
O que seria isso? Trata-se de uma mutação antropológica de impacto ainda desconhecido que se encontra nos dias de hoje em plena desenvoltura. Ela é bastante perceptível por meio de uma incrível coincidência e de um axioma que podemos explorar à exaustão: o debate em defesa do pós-humano ocorre exatamente no mesmo momento histórico em que se reivindica a criação dos direitos animais. Analisemos essa coincidência temporal, que mais parece um capricho fortuito da natureza.

Golens & Galãs
Independente das conquistas luminosas que tais tecnologias de extensão corpórea possam proporcionar, entre a euforia ingênua e a superficialidade competente, poucos têm percebido a real amplitude da questão posta em jogo. E essa questão pode ser resumida em uma frase tão singela quanto catastrófica: daqui a alguns séculos ou mesmo daqui a um milênio, quem não for pós-humano será humano ou animal? Em outras palavras: qual critério biopolítico será usado para definir o limite entre o pós-humano e o humano e entre este e os animais? Quando falo em pós-humano, não me refiro apenas a pessoas com próteses neuronais maquínicas, mas a todos os humanos ou animais seqüenciados geneticamente. Afinal, um dos critérios distintivos entre humano e pós-humano, em termos teóricos, é a participação ou não do fator acaso na geração. Alguém seqüenciado geneticamente conta com uma anulação do acaso e da natureza em uma proporção muito maior do que quem simplesmente tem extensões maquínicas do seu sistema nervoso central. Essa questão vem desenvolvida magistralmente no filme Gattaca, no qual se postula um mundo no qual os não-sequenciados são “filhos de Deus” ou “filhos do acaso”, sinônimos de párias sociais e de inválidos. Ao passo que os sequenciados são aqueles que anularam a ingerência do acaso na criação. Quer dizer: nasceram in vitro. O futuro reserva uma incrível e inaudita equivalência, não mais entre Deus e Destino, mas entre Deus e Acaso. Não por outro motivo Nietzsche define o Acaso como o maior dos deuses, dando mostras do teor ainda criptorreligioso de seu pensamento.
Como diria Valéry, em uma sentença tão poética quanto verdadeira: o ser é um acidente no não-ser. Se desde Newton o Universo é uma complexa maquinaria de matéria fria e indiferente, e a vida, uma absoluta excrescência no funcionamento das peças dessa engrenagem, e se desde Darwin a natureza é, por definição, o império do acaso, e o homem, uma poeira casualmente surgida nesse oceano de matéria cósmica em seu destino épico de cegueira e glória, quem nos garante que o pós-humano não será o novo paradigma de definição de humanidade, à medida que ele romperá com a cadeia de sucessões casuísticas e dominará a matéria, modelando-a e desenhando-se a si mesmo e às demais criaturas? O além-do-homem de Nietzsche, vulgo super-homem, nesse contexto, não seria uma versão ainda romântica e espiritualizada do pós-humano? Provavelmente.
Assim como Frankenstein foi uma invenção surgida de um terror agônico infantil diante da suspensão da contingência, uma fantasia tardia do romantismo gótico, como bem intuiu Luiz Felipe Pondé. Disso concluímos que até mesmo o além-do-homem de Nietzsche não irá sobreviver à potência e ao tônus moral do pós-humano, que irá extingui-lo. O super-homem será uma espécie de padre de um passado aborrecido, de todo desinteressante para o pós-humano. E de uma coisa podemos estar certos: os pós-humanos estarão mais próximos de Brad Pitt ou de um galã empresarial planetariamente bem-sucedido e geneticamente sequenciado do que do Golem desengonçado do filme de Paul Wegener.

A Mutação
Se a definição política do humano tende a se ampliar, englobando domínios maquínicos e genéticos até então desconhecidos, esse mesmo movimento inclusivo, seja ele pensado a partir da dialética clássica, seja a partir da teoria dos sistemas de Niklas Luhmann, tenderá a eliminar de si os resíduos que não se empenhem plenamente na coesão interna do processo de assimilação. Em outras palavras, tudo o que começar a ser considerado residual na passagem do humano ao pós-humano, o velho humano que come, dorme, passa fome, sente frio, sofre, ri, defeca, sonha e faz amor, tenderá a ser suprimido.
Diante disso, se as teorias da consciência vigentes durante tantos séculos de filosofia e de teologia já tinham sido dinamitadas pelo darwinismo, agora se encontram em estado final de erosão, com as novas teorias processuais da consciência e dos nexos materiais e causais que a produzem como fenômeno vital. Como disse o filósofo da mente Daniel Dennett, cavaleiro da nova cruzada ateísta extemporânea, o eu é uma ficção útil. Da utilidade à inutilidade, vai o espaço de uma mudança de costume no uso dos talheres. Caso uma teoria consiga reduzir a consciência humana a um fenômeno de campo material estará com isso igualando a sua essência aos modos de apreensão e de preensão perceptiva animais. Será o fim definitivo da fronteira que separava os seres humanos de todo o restante dos seres vivos, indicando entre ambos mais uma distinção de grau e de níveis de complexidade de sistemas do que uma distinção de natureza.
Mas, claro, nem tudo é fraternidade nesse elo perdido cósmico que nos reunirá aos nossos queridos animais. E o debate não se reduzirá a meras elucubrações de laboratórios e cátedras de filosofia. Há uma tendência inexorável de essas teses ganharem o espaço público e reformularem radicalmente os princípios do biopoder planetário, borrando as margens jurídicas que separam animais e humanos e, consequentemente, reforçando a linha divisória que separa humanos de pós-humanos. Assim, do ponto de vista da ampliação dos direitos dos animais, cuja alegre e ruidosa cidadania verde, por meio da ideologia e da tecnologia ecológicas, se encontra em plena expansão no planeta de Avatar, um novo sentido de consciência encontrará legitimidade e, por conseguinte, jurisdição. A milenar distinção entre a lei das selvas e a leia da polis, entre physis e nomos, tende a se apagar.

Biopolítica
Como toda mutação antropológica, as consequências não são imediatas. Mas submetidas exponencialmente ao efeito compressor da tecnologia, talvez hoje elas se sintam com muito mais velocidade do que na lentidão esmagadora da passagem dos hominídeos ao homo sapiens. Se no passado da Terra eram necessários até milênios para a seleção das espécies, quem sabe esse processo hoje em dia leve apenas alguns séculos? Nesse caso, os legisladores dos esquilos, dos gafanhotos e das alfaces serão os futuros protetores de nossos tataranetos? Ou viveremos em um mundo de pós-humanos divididos entre comedores de granola e de bebês? Malgrado o teor insólito desse tipo de futurologia, é inescapável tecer algumas considerações a esse respeito. Mais do que isso: torna-se urgente pensar em novas formas de definição da vida em um sentido político, antes que a vida seja confiscada pelo poder de quem consiga arbitrariamente defini-la primeiro.
Partindo da hipótese da mudança de demarcações de fronteiras entre animais, humanos e pós-humanos, perceberemos que ela se dá de modo unilateral. Se a assimilação recíproca dos humanos e dos animais ocorrerá certamente em função de ambos serem formas de vida submetidas ao acaso, ou seja, à natureza, o corte entre os pós-humanos e o conjunto de outras formas de vida, incluídos os humanos, será autoexcludente, pois colocará em xeque a própria totalidade da natureza entendida como processo autônomo e indiferenciado.
Em linhas gerais, do ponto de vista antropológico, as novas tecnologias gênicas e de próteses neurais, bem como as teorias que, baseadas em padrões processuais, sustentam uma indiferenciação entre consciência humana e vitalismo animal, não substituirão o ser humano pela máquina nem o reduzirão a princípios mecânicos. Esse é apenas o aspecto mais pueril do problema, em última instância irrelevante, pois em termos cibernéticos uma máquina nunca poderá ser totalmente equivalente a um aparelho biológico, pois teria, para isso, que reconstituir em si mesma todos os bilhões de anos que o Universo levou para tramar cada corpo biológico singular. Tampouco essas tecnologias levarão os humanos reais ao extermínio, como se espera no desfecho de filmes b de ficção científica.
O que tais tecnologias certamente produzirão a longo, médio ou até mesmo curto prazos é algo muito mais etéreo, drástico e irreversível: a extinção do conceito biopolítico de humano. Este, assimilado à animalidade, terá de se defrontar com uma nova fronteira opositora: não mais a separação entre humanos e animais, mas sim a separação entre ambos e os pós-humanos. A película de cisão entre os humanos e os animais tende a se dissipar em uma via dupla. Esse apagamento ocorrerá tanto por meio da assimilação dos conceitos biopolíticos de humano e de animal sob a mesma categoria genérica de animais ou de natureza, quanto por intermédio das novas teorias científicas que definem a consciência como campo processual indiferenciado de informações vitais.
Por seu turno, em sentido inversamente proporcional, uma enorme muralha invisível se erguerá entre os pós-humanos e os demais seres vivos, entre sequenciados e não-sequenciados, entre protéticos e não-protéticos. A reivindicação de maior acesso aos meios biotecnológicos não será diferente à do proletariado do século XIX por melhores salários. A nova triagem política do Palácio de Cristal passará necessariamente pela utopia gênica. A nova cisão planetária ocorrerá entre aqueles que pertencerão às estufas de conforto e poderão investir suas ações vitais no fundo de commodities da seguridade biológica e maquínica e aqueles cujas carnes, vitimadas por baixas taxas de imunologia política, estarão submetidas aos flagelos de velhos mitos, tais como Deus, amor, esperança, democracia, progresso, liberdade, solidariedade, natureza e acaso, numa curiosa coexistência excludente entre culturas e mitologias globais nômades e sedentárias. Mas as consequências mais radicais dessa clivagem ainda estão por ser pensadas.

O Parque Humano
Em 1999, o filósofo alemão Peter Sloterdijk pronunciou a sua tão famosa quanto deturpada conferência em Elmau, na Baviera, publicada sob o nome de Regras para o Parque Humano, e escandalizou os bons sentimentos da classe intelectual, quase sempre cínica e sempre média, com a sugestiva proposta da criação de um banco genético humano mundial. Partindo de uma passagem de Platão, na qual o luminar da filosofia ocidental propunha que se procedesse a uma distinção entre os homens mais e menos saudáveis como modo de assegurar a aptidão para a vida política, Sloterdijk argumenta que o projeto eugênico não é um patrimônio dos sistemas totalitários do século XX.
Gestada no Gabinete dos Cínicos, ao chamar para si a experimentação sem limites das possibilidades oferecidas pela natureza, com o intuito de produzir cada vez mais eficácia e melhora no desempenho da máquina humana, a modernidade como um todo se funda sobre uma utopia eugênica. Um ser humano cada vez melhor e cada vez mais plástico é o sonho que unifica todos os projetos modernizadores, sejam quais forem seus quadrantes ideológicos e econômicos. Sonho esse que se realiza de modo cada vez mais eficaz e veloz nos dias de hoje, justamente na época que sepultou as aborrecidas e entediantes utopias políticas do século XX.
A sugestão de Sloterdijk não só é plausível como perspicaz. Mesmo com o naufrágio do velho humanismo e das velhas escolas de domesticação humana e mesmo com o fracasso de sua tentativa de criação de um novo homem por meio das utopias políticas, o projeto eugênico se encontra de vento em popa. Ele se materializa nas cotações do mercado gênico mundial e nas bolsas de ações em biótipos, independente da lamúria das carpideiras marxistas e dos fantasmas humanistas que ainda assolam o debate, reivindicando uma natureza humana ou uma naturalidade do homem que o próprio arco histórico humanista moderno, seja ele liberal ou socialista, ajudou a destruir.
A despeito da falsa consciência ilustrada dos cínicos, mais preocupados com a nossa dignidade humana perdida do que os religiosos com a Queda, o processo de sequenciamento genético se encontra em franca expansão. Assim, nada mais justo do que pensar, para um futuro próximo, em uma jurisdição para a partilha gênica planetária. Foi essa a coragem de Sloterdijk ao trazer a questão para o debate e enfrentá-la. Porém, por conta das contingências e circunstâncias de seu escrito, faltou um passo decisivo à sua reflexão. Agora, diante dos novos postulados abertos pela defesa do pós-humano, talvez possamos levar ainda mais longe a sua premissa.

Antropofagia
O filósofo italiano Giorgio Agamben deu uma contribuição importante para a compreensão da biopolítica global contemporânea com sua obra Homo Sacer. Baseou-se em uma antiga figura do direito romano que designava um papel bastante estranho para nossa sensibilidade atual: o homo sacer é, por definição, matável. Ou seja, não se inscreve no ordenamento jurídico vigente, podendo ser assassinado sem comprometimento do praticante do ato. Da fronteira entre estado de direito e estado de exceção, Agamben depreende a sua teologia do Estado moderno, sustentando a polêmica tese de que a assimilação da bíos pela zoé, ou seja, da vida determinada da esfera política pela esfera indeterminada da vida natural, é o mecanismo por meio do qual as políticas de extermínio modernas se fundamentaram e sobre o qual criaram a sua impecável racionalidade.
Se humanos e animais gozam de uma mesma dignidade natural, em caso de fracasso de políticas ambientais, ambos poderão ser abatidos? Poderíamos dizer que a inofensiva propaganda dos ecologistas prepara a base teórica para futuras biopolíticas de extermínio globais? De boas intenções a natureza está cheia. Sem entrar no mérito de debater a tese de Agamben, ela levanta um ponto nuclear. Sob essa matável vida nua, como ele a define, e em um seguimento temporal mais amplo, se oculta um mecanismo antropológico ainda mais profundo, que lança raízes na própria origem da cultura humana. Trata-se do bode expiatório, para me valer aqui da preciosa tese de René Girard, e, em última instância, do ritual da antropofagia. Ambos, bode expiatório e antropofagia, desempenham, por sua vez, uma função essencial no nascimento de algo tão abstrato quanto poderosamente real: a lei. Afinal, vale lembrar, não é fortuito que a maior parte do pensamento moderno tenha se ocupado das origens da civilização sempre em um nexo indissociável e de homologia entre a instauração de uma violência arcaica e a fundação da lei.
Seja no nível sociológico pensado por Marx, no qual a propriedade seria fruto de um roubo ancestral e a lei, a codificação ulterior que naturaliza o roubo como patrimônio. Seja no nível cosmológico de Nietzsche, no qual a lei nasce como válvula reguladora do ressentimento contra um cosmo adverso. Seja como lei natural de seleção por extermínio das espécies mais fracas, em Darwin. Seja como assassinato e canibalização do pai arcaico, que instaura a lei e a consciência da culpa para Freud. Seja como lei totêmica e interdição do incesto na passagem da natureza para a cultura, para Lévi-Strauss. Seja a lei tomada como fundamento da inscrição na cultura e como castração simbólica pela linguagem, segundo Lacan. Seja a lei entendida como expiação reguladora da violência mimética contagiosa, neutralizada mediante a descarga exercida sobre o bode expiatório, como propõe Girard.
Em todos esses sentidos, é quase uma dominante na linhagem hegemônica do pensamento moderno, definida como hermenêutica da suspeita, entrever o jogo de luz e sombra nas franjas do real como sendo o verdadeiro cenário no qual se desenrola a aventura moral humana. Aquém e além desse umbral oscilante de violência e sentido, se espraia o silêncio indiferente dos espaços infinitos e o mutismo tão harmonioso quanto insignificante de todas as outras formas de vida. Mais do que a díade platônica de recurso e pobreza, o ser humano é e sempre foi o acorde consonante de uma sinfonia feita de carência e fúria, avessa às ordens da natureza. Como diz Bataille, a cultura humana não nasce da emancipação de uma lei natural, mas sim de uma transgressão da natureza. A humanidade só começa com os golpes de clava no corpo morto de um inocente. Exatamente ali onde abruptamente termina a natureza começa o homem. Essa é a inscrição do homem em sua humanidade. Essa é a cesura, para usar o conceito de Sloterdijk.

O ELO PERDIDO

Novo Ecumenismo
Como disse Vilém Flusser, genial filósofo da linguagem e das tecnologias, em nosso tempo o sentimento religioso se tornou de novo geral, ou seja, tornou-se de fato e finalmente católico – e abissal. Pois ao contrário do projeto histórico cristão, esse novo catolicismo do espírito religioso reside na partilha de um sentimento universal de falta de fundo. Sim: no limiar do terceiro milênio, a experiência do Nada talvez seja a única experiência religiosa que nos una como espécie.
Diante dessas constatações, como pensar a passagem do humano ao pós-humano? Quem nos garante que esse Nada de valor e de sentido não será a substância transfigurada das religiões do futuro? Em outras palavras, na era pós-humana, como a humanidade do homem será antropologicamente preservada, de modo que ela não transborde para a afasia de um além inarticulado nem regrida a um aquém animal ou vegetal, para lembrar os dois polos da relação língua-realidade descritos por Flusser? Certamente, ela será salvaguardada por meio da reativação do ritual do canibalismo. E aqui não uso o sentido figurado. Emprego o sentido literal.

A Morte Obsoleta
Obviamente, quando falo em antropofagia, e como disse, não o faço em sentido simbólico, mas literal, não me refiro à morte, pois a cultura da morte quase se confunde com a cultura humana. A morte envelheceu depressa nos últimos séculos. O cultivo da morte e o desenvolvimento das tecnologias da morte chegaram a seu apogeu de voracidade e refinamento no século XX. O Iluminismo nada mais foi do que a descoberta do sentido escatológico e da teleologia épica que a morte pode oferecer, mediante um uso racional das reservas de violência endógenas dos grupos sociais. E não é por outro motivo que Agamben define os campos de concentração e os democídios do século XX como uma realização impecável da lógica e da racionalidade ilustradas, não como uma excrescência romântica, alheia ao processo modernizador. O totalitarismo é a realização plena da razão. O extermínio é a obra de arte total do Estado.  
Usada racionalmente, a morte é o combustível do progresso. Porém, no mundo contemporâneo, as tecnologias da morte já foram superadas pela eficácia produtiva das neuroses de massa. Da mesma forma, as tecnologias da guerra já foram diluídas no cotidiano armamentista das repartições públicas, na artilharia da mídia e nas trincheiras proativas das empresas. Nem os atentados terroristas escapam ao infantilismo da pura agressão e às engrenagens da cultura do entretenimento. Mesmo com a privatização da guerra e com a sua transformação em uma prestação de serviços, como mostra o estudo de Rolf Uesseler, a guerra ainda é muito dispendiosa. Não é mais uma fonte de riqueza psicopolítica. A escravidão chegou ao fim no século XIX porque os combustíveis fósseis tornaram-se muito mais baratos e eficazes do que os combustíveis humanos. Isso não quer dizer que a escravidão tenha se extinguido. Ela apenas foi democratizada. Passou a ser ministrada em doses homeopáticas. O mercado da escravidão foi reterritorializado em outros espaços e práticas. Tornou-se um bem de consumo cotidiano. A forma histórica e clássica da escravidão se transformou em uma forma obsoleta de violência.
Em breve haverá um parque temático de suicidas? Contra o parasitismo social oneroso, quem garante que não serão criadas políticas públicas de incentivo à eutanásia? Estas podem assumir modalidades de entretenimento pedagógico-cultural, e virarem uma espécie de BBB da morte. Nessa chave, a defesa do humanismo que vemos em filmes como Vênus Negra é tão edificante quanto tola. A animalização da negra africana, enjaulada em um picadeiro e noticiada na seara dos faits divers da Londres do século XIX, não difere em nada da zoofilia planetária dos animais que, entre piscinas e bundas, literalmente animam os programas de auditório dos nossos domingos.
Em última instância, a criação de novas doenças de eficácia homeopática e de um sistema delivery de novos vírus sem cura em nível global serão sempre muito mais lucrativos do que qualquer assassinato. Tudo é uma questão de capitalizarmos bem a violência. Tudo se reduz a mecanismos de onerações e desonerações que abastecem e climatizam a biosfera artificial das novas hordas sociais flutuantes. Nelas navegamos no espaço interior do capital e habitamos o castelo de conforto planetário. A morte não tem mais para onde evoluir. Ainda mais na era pós-humana, na qual a utopia da longevidade e o advento de uma eventual suspensão literal da morte podem se concretizar significativamente, aumentando a vida útil dos investidores.

Limiar
Mesmo em toda sua majestade, a violência e a morte produzidas no século XX ainda não tinham transposto o limiar antropológico de sua redenção, de sua consumação, de seu remate, aquele turning point a partir do qual o que é se transfigura em outro de si: muda de natureza sem mudar de essência. Isso ocorre porque a violência, com algumas raras exceções, ainda não ultrapassou a lógica do assassinato. Quer dizer: ainda não se transformou em canibalismo. Em outras palavras: a inscrição simbólica dos pós-humanos na clareira da cultura se fará mediante a restauração da antropofagia. Da mesma forma, tal como se deu a abertura da antropogênese humana há uns quinhentos mil anos, a futura saída dos humanos da dimensão puramente animal à qual eles estão sendo reconvertidos só se dará mediante a nova inscrição de um umbral de violência, ou seja, com uma nova vigência dos rituais de canibalismo. Somente mediante a devoração literal de seres humanos o homem persistirá em sua unidade antropológica.
A antropofagia seria o novo locus metafísico planetário e uma nova mitologia política? Será por meio dela que a morte paradoxalmente renascerá plena de sentido em um horizonte extinto? Seria a antropofagia a grande interdição não nomeada da civilização e da cultura humanas, prestes a ser desativada? Será essa a descoberta e a revelação profética do grande Apocalipse a que se refere Girard? Não uma catástrofe nuclear, mas o reconhecimento, até à raiz orgânica, da substância traumática de que somos feitos, misto de mimetismo e violência endêmica? Seria a antropofagia a experiência radical do mimetismo que funda a cultura humana? O alfa e o ômega da nossa humanidade? Se as intuições geniais de Oswald de Andrade estão corretas, a compreensão do nosso futuro milenar dependerá, ironicamente, de uma melhor compreensão da alegria canibalesca dos tupinambás? Em que sentido transpor o umbral antropológico da passagem dos humanos aos pós-humanos não implicaria necessariamente uma atualização de um rito sacrificial? Quem será o anátema desse novo éon? Arrisco dizer: o homem.
E nesse sentido, como brilhantemente intuiu Girard, o cristianismo, entendido como metáfora teocríptica, continua sendo sublime e insuperável, pois já sinaliza, em sua própria estrutura, esse novo ecumenismo negativo e sacrificial planetário. Porém, hierofania do amor, o cristianismo não é uma religião que oferece um novo modelo de expiação, mas sim uma fé que realiza, no nível antropológico, a desativação mesma do mecanismo sacrifical e da lógica do bode expiatório, como propõe Girard. Justamente por isso, não atenderá às necessidades literais e traumáticas que esse transtorno antropológico iminente exige. Tal como o super-homem de Nietzsche, o cristianismo também não sobreviverá. Ambos representam figuras hierofânicas da grande era antropocêntrica do mundo, em cujo limiar de extinção nos encontramos.

Robôs na Alcova
Seria então a antropofagia o maior tabu da civilização? Provavelmente. Nesse sentido, não deixa de ser significativo que mesmo um autor como Marquês de Sade, espécie de limite imaginário de transgressão, violência e infração de rigorosamente todos os códigos, leis e costumes que estruturam a cultura dita humana, por meio de práticas que vão das mutilações genitais e do incesto à coprofagia e ao assassinato, também tenha seus tabus. Dentre eles, a interdição explícita da autofagia e a quase inexistência de antropofagia em suas divertidas narrativas.
A obra de Sade é a versão pornográfica do homem-máquina de La Mettrie. Seus corpos-engrenagens têm o único intuito de transformar orifícios e protuberâncias em uma mecânica de válvulas e alavancas de prazer. O imaginário sádico é um onanismo coletivo. É uma festa fecal da incomunicabilidade ontológica. É um jardim da infância da univocidade. Porque o sadismo nada mais é do que a extinção de toda a dimensão orgânica do gozo. Nesse sentido, é extremamente conservador, pois consiste em uma interdição radical da experiência orgânica e, portanto, agônica e antagônica, do prazer, entendido como plena impotência do sujeito perante o objeto. Vive majestosamente em sua ilusão ejaculatória de um protagonismo sem rival. É justamente por isso que os personagens se fodem, mas não se amam e tampouco se comem – literalmente. Há transgressão, mas não há antropofagia. Afinal, robôs, mesmo pornográficos, não são bons para a digestão. Tudo isso demonstra que, no fundo, apesar de seus devaneios infanto-juvenis, Sade não passava de um bom e velho moralista francês.  
Se aparentemente ridicularizo o divino marquês, faço-o apenas para demonstrar que aos olhos da lógica pós-humana ele não passará de uma inofensiva peça de antiquário. Mais que isso: aos olhos pós-humanos, haveria um elo subterrâneo profundo entre as religiões reveladas e soteriológicas universais e a obra de Sade. Tal como as primeiras constituem um corpus doutrinário em louvor a Deus, a obra do marquês é uma Bíblia de louvor à Natureza. Ambos são motores metafísicos, simbólicos e antropológicos de humanização e de animalização, respectivamente. Nesse sentido, tanto os escritos religiosos quanto os sádicos são manuais pedagógicos de produção de inválidos, sejam eles filhos do Deus-Acaso ou da Lei-Natureza.

Da Ontologia à Odontologia
Em linhas gerais, se o processo de hominização levou milhões de anos para se cumprir até o estágio atual, do ponto de vista lógico tudo indica que ele precisará de um período de vigência planetária do canibalismo para subsistir, caso contrário entrará em colapso e a hominização será abortada. Tal como o trauma inaugural, ou seja, o fenômeno da neotenia, do nascimento prematuro, criou o enclave biológico que eviscerou o ser humano dos hominídeos, gerando duas espécies, o novo umbral antropológico também exige um hiato, uma passagem que não será meramente mítica, mas material, literal.
As fronteiras biotecnológicas podem fornecer os liames físicos de distinção das espécies, mas não os culturais. O corte antropológico que determinará a cesura entre humanos e pós-humanos se dará quando os pós-humanos refundarem atavicamente o assassinato arcaico, ou seja, quando vitimados pela violência intestina e incontrolável dos embates entre grupos, canibalizarem os humanos de outrora. Por seu turno, o escape e a passagem dos humanos animalizados à reconquista de sua humanidade perdida certamente passará também pela reedição do ritual de canibalismo, de preferência dos inimigos, dos pós-humanos, cujas carnes, se ainda existirem, serão as mais tenras da Terra. Lembrando a fina ironia de Oswald de Andrade, a saída para a civilização não será ontológica, mas odontológica.

Relatório para a Academia
Kafka compreendeu como ninguém o biopoder do mundo contemporâneo. Mais que isso: ele é o profeta das tecnologias de poder e da biopolítica mundial que está por vir. Em seu conhecido conto, um chimpanzé fala de seu passado simiesco para uma Academia de Ciência. Por ironia de segundo grau, ao escrever este texto, coloco-me, diante de vocês, no lugar desse erudito chimpanzé. A paródia de Kafka é uma inversão brilhante da teleologia da história natural. A ciência é vista como o macaquear pré-histórico de uma humanidade ainda por vir, como uma anamnese prospectiva dos mais fracos que serão futuramente vencidos pela seleção dos mais fortes, engendrados pela própria ciência. Seleção esta, no caso, não mais natural, mas artificial, feita mediante a incisão biotecnológica que separa os sequenciados dos não-sequenciados, os humanos dos pós-humanos.
Porém, como diz o poeta: de tudo fica um pouco. Às vezes uma flor. Às vezes um rato. Essa ancestralidade incrustada nos moldes pós-humanos precisará de uma resolução simbólica. É difícil conviver com esses fragmentos humanos que se alojam na plasticidade de um corpo em quase tudo puro, edênico. Tal como os neandertais deixaram vestígios físicos no homo sapiens, paradoxal e simultaneamente desapareceram e se preservaram, a passagem do humano ao pós-humano não será em vão. Algo do furor ancestral e da rebelião cósmica contra as fagulhas de um passado perdido, porém inacessível, tenderá a se manifestar da maneira mais brutal possível nesse seres sublimes de amianto e luz. E será assim que o pós-humano, ao reeditar o assassinato do pai arcaico das hordas paleolíticas de hominídeos, se humanizará mediante o canibalismo.
Nesse sentido, por mais aberrante que isso possa parecer, podemos nos perguntar se seria o caso de os intelectuais, as autoridades, os juristas e toda a sociedade começarem a pensar em uma jurisdição planetária e em uma organização biopolítica realista para a circulação, o abate e o consumo de carne humana? Por maior que seja a falsa moral e a real hipocrisia de todos os que queiram escamotear a irreversibilidade desse processo, não seria factível considerar a sua pertinência? Se podemos racionalmente pesar e pensar essa sucessão de inscrições de absurdo, beleza e desgraça que constituiu a nossa condição, desde os primatas até nós, por que não a pensarmos também de nós aos nossos futuros herdeiros? Talvez eles não estejam tão distantes quanto imaginamos.

Uma Nova Moral
No século XVII, o moralista Jonathan Swift escreveu o libelo satírico A Modest Propose, no qual propõe que se tirasse uma fatia da nádega das crianças mais rechonchudas para acabar com a fome na Irlanda. Talvez ele não soubesse quão profético fora seu riso. E quão saborosa e impiedosa será a gargalhada daqueles que, num futuro distante, estando do lado dos devoradores e não dos devorados, compreenderão alegre e plenamente a sua alegoria.
Swift e Kafka apenas anteviram os mecanismos antropológicos que fazem de mim, de você e de todos nós os primatas de um futuro vazio, avesso a qualquer ilusão, mas não isento de arrependimento. Porque a humanidade do homem só se extinguirá o dia em que não houver arrependimento. Para ela não se extinguir, seremos sempre e cada vez mais capazes de cometer transgressões e infrações cada vez mais graves. Ou cada vez mais banais, como um dia será comer carne humana.
Afinal, possivelmente ela será mais natural e, portanto, na falta de algo mais saudável, os vegetarianos podem preferi-la aos legumes transgênicos. Se ocorrer de ela ser mais barata, então teremos de fato a universalização cabal de seu consumo. A propósito, na culinária, como em tudo, os chineses estão na vanguarda. Os seus acepipes e manjares feitos da carne tenra de nossos arcaicos irmãos macacos podem no final das contas servir de atenuante e lenitivo para a consciência antropológica e humanista do futuro.

Fim e Começo
A origem da vida tem cerca de sete bilhões de anos. O pré-cambriano, período de formação geológica dos unicelulares, dos minérios e dos vegetais, ocupa 82% do tempo de vida da Terra. Nós, incluídas todas as formas de hominídeos anteriores ao homo sapiens, encenamos nossa farsa há um tempo equivalente a 1% do tempo da vida geológica. Mais que isso: do montante deste 1% de vida hominídea, passamos 99% nas savanas africanas e estepes, como caçadores, isto é, como predadores. Ou seja: apenas 1% do 1% da vida hominídea constitui isto que chamamos gloriosamente de civilização, que tem dez mil anos. Diante desses números, o leitor inteligente deve ter esboçado um sorriso constrangido, amarelo e terrível. Compreendeu o que quero dizer. No dia em que um homem do futuro, o último homem de que fala Nietzsche, canibalizar sem remorso aquilo que ele fora e não o é mais, é sinal de que, além e aquém do humano, a humanidade se extinguiu.
A sua assimilação cultural e orgânica ocorrerá sem fraturas e, portanto, sem saltos. Ou seja: ele será dotado do mesmo processo fotossintético das algas e da mesma indiferença e estupidez dos unicelulares. Ter-se-á rompido a cadeia de ouro de Homero, o invisível fio que conecta a multiplicidade infinita da aventura humana sobre a Terra. Por maior que seja seu estado de harmonia com a natureza, filosoficamente ele estará mais próximo de uma ameba ou de um protozoário do que de um humano, por mais que a biologia e os anatomistas queiram em vão provar o contrário. Haverá hominídeos, mas não haverá humanidade, nem em humanos, nem em animais, nem em pós-humanos.

Eclesiastes
Porém, até isso é digno de ser relativizado. Pois se tal extinção pode representar um grande drama para as boas almas e para as consciências antropocêntricas, aquelas que acreditam que sejamos algo mais do que um belo caniço pensante, ela é absolutamente irrelevante para o fenômeno da vida. Voltando a Nietzsche: um dia, em um lugar chamado Terra, um ser chamado homem inventou uma coisa chamada conhecimento. Como arremata o filósofo: esse foi o acontecimento mais arrogante da história do Universo. O mesmo pode-se dizer sobre o dia em que, em eras longínquas de um passado pós-glacial, em uma atitude simiesca, um macaco se dirigiu às águas translúcidas de um rio e, nele se espelhando, se chamou de homem.