O ÚLTIMO HOMEM
O Apocalipse será a suprema realização da espécie
humana.
René Girard
A Corda
De acordo com a famosa sentença de Nietzsche, o homem é uma
corda atada entre o animal e o além-do-homem – uma corda sobre um abismo.
Quando a formulou, seu intuito era mais filosófico do que literal. Queria
definir o humano como algo não substancial em si e por si, como o lugar onde se
realiza a ultrapassagem de toda determinação moral, cultural, metafísica ou
biológica, como algo, enfim, que só existe enquanto contínua excentricidade. Não
queria sugerir desdobramentos práticos de sua afirmação. Por isso, provavelmente
ficaria surpreso se visse a rapidez com que ela pode vir a se tornar realidade.
Se analisarmos sua frase mais a fundo, constataremos o seu
teor paradoxal. Saltará aos olhos a verdade que ela oculta ao se desvelar
enquanto verdade, para usar a maiêutica desvelante-oclusiva de Heidegger. Se só
existe humanidade à medida que há ultrapassagem do humano pelo homem, entendido
como corpo biológico e alma metafísica, então o além-do-homem profetizado por
Nietzsche está em plena via de realização. E isso começa a ocorrer não com a
extinção dos seres humanos reais, entendidos como espécie, mas sim por meio da
extinção do conceito de humano, que
talvez sempre tenha sido e provavelmente sempre será demasiado humano. Ao contrário do que queria Nietzsche, essa
superação não está se dando por um ato de transcendência, por meio do qual o
espírito supere em si todo constrangimento metafísico
e biológico, ou seja, toda a religião e toda a ciência. Realiza-se sim por uma paradoxal assimilação regressiva do humano pelo animal.
O que seria isso? Trata-se de uma mutação antropológica de
impacto ainda desconhecido que se encontra nos dias de hoje em plena
desenvoltura. Ela é bastante perceptível por meio de uma incrível coincidência
e de um axioma que podemos explorar à exaustão: o debate em defesa do pós-humano
ocorre exatamente no mesmo momento histórico em que se reivindica a criação dos
direitos animais. Analisemos essa coincidência temporal, que mais parece um
capricho fortuito da natureza.
Golens & Galãs
Independente das conquistas luminosas que tais tecnologias de
extensão corpórea possam proporcionar, entre a euforia ingênua e a
superficialidade competente, poucos têm percebido a real amplitude da questão
posta em jogo. E essa questão pode ser resumida em uma frase tão singela quanto
catastrófica: daqui a alguns séculos ou mesmo daqui a um milênio, quem não for
pós-humano será humano ou animal? Em outras palavras: qual critério biopolítico
será usado para definir o limite entre o pós-humano e o humano e entre este e
os animais? Quando falo em pós-humano, não me refiro apenas a pessoas com
próteses neuronais maquínicas, mas a todos os humanos ou animais seqüenciados
geneticamente. Afinal, um dos critérios distintivos entre humano e pós-humano,
em termos teóricos, é a participação ou não do fator acaso na geração. Alguém seqüenciado geneticamente conta com uma
anulação do acaso e da natureza em uma proporção muito maior do que quem simplesmente
tem extensões maquínicas do seu sistema nervoso central. Essa questão vem
desenvolvida magistralmente no filme Gattaca, no qual se postula um mundo no
qual os não-sequenciados são “filhos de Deus” ou “filhos do acaso”, sinônimos
de párias sociais e de inválidos. Ao passo que os sequenciados
são aqueles que anularam a ingerência do acaso na criação. Quer dizer: nasceram
in vitro. O futuro reserva uma
incrível e inaudita equivalência, não mais entre Deus e Destino, mas entre Deus
e Acaso. Não por outro motivo Nietzsche define o Acaso como o maior dos deuses,
dando mostras do teor ainda criptorreligioso de seu pensamento.
Como diria Valéry, em uma sentença tão poética quanto
verdadeira: o ser é um acidente no
não-ser. Se desde Newton o Universo é uma complexa maquinaria de matéria
fria e indiferente, e a vida, uma absoluta excrescência no funcionamento das
peças dessa engrenagem, e se desde Darwin a natureza é, por definição, o
império do acaso, e o homem, uma poeira casualmente surgida nesse oceano de
matéria cósmica em seu destino épico de cegueira e glória, quem nos garante que
o pós-humano não será o novo paradigma de definição de humanidade, à medida que
ele romperá com a cadeia de sucessões casuísticas e dominará a matéria,
modelando-a e desenhando-se a si mesmo e às demais criaturas? O além-do-homem
de Nietzsche, vulgo super-homem, nesse contexto, não seria uma versão ainda romântica
e espiritualizada do pós-humano? Provavelmente.
Assim como Frankenstein foi uma invenção surgida de um terror
agônico infantil diante da suspensão da contingência, uma fantasia tardia do
romantismo gótico, como bem intuiu Luiz Felipe Pondé. Disso concluímos que até
mesmo o além-do-homem de Nietzsche não irá sobreviver à potência e ao tônus
moral do pós-humano, que irá extingui-lo. O super-homem será uma espécie de
padre de um passado aborrecido, de todo desinteressante para o pós-humano. E de
uma coisa podemos estar certos: os pós-humanos estarão mais próximos de Brad
Pitt ou de um galã empresarial planetariamente bem-sucedido e geneticamente sequenciado
do que do Golem desengonçado do filme de Paul
Wegener.
A Mutação
Se a definição política do humano tende a se ampliar, englobando
domínios maquínicos e genéticos até então desconhecidos, esse mesmo movimento
inclusivo, seja ele pensado a partir da dialética clássica, seja a partir da
teoria dos sistemas de Niklas Luhmann, tenderá a eliminar de si os resíduos que
não se empenhem plenamente na coesão interna do processo de assimilação. Em
outras palavras, tudo o que começar a ser considerado residual na passagem do
humano ao pós-humano, o velho humano que come, dorme, passa fome, sente frio,
sofre, ri, defeca, sonha e faz amor, tenderá a ser suprimido.
Diante disso, se as teorias da consciência vigentes durante
tantos séculos de filosofia e de teologia já tinham sido dinamitadas pelo
darwinismo, agora se encontram em estado final de erosão, com as novas teorias
processuais da consciência e dos nexos materiais e causais que a produzem como
fenômeno vital. Como disse o filósofo da mente Daniel Dennett, cavaleiro da
nova cruzada ateísta extemporânea, o eu é
uma ficção útil. Da utilidade à inutilidade, vai o espaço de uma mudança de
costume no uso dos talheres. Caso uma teoria consiga reduzir a consciência
humana a um fenômeno de campo material estará com isso igualando a sua essência
aos modos de apreensão e de preensão perceptiva animais. Será o fim definitivo
da fronteira que separava os seres humanos de todo o restante dos seres vivos,
indicando entre ambos mais uma distinção de grau e de níveis de complexidade de
sistemas do que uma distinção de natureza.
Mas, claro, nem tudo é fraternidade nesse elo perdido cósmico
que nos reunirá aos nossos queridos animais. E o debate não se reduzirá a meras
elucubrações de laboratórios e cátedras de filosofia. Há uma tendência
inexorável de essas teses ganharem o espaço público e reformularem radicalmente
os princípios do biopoder planetário, borrando as margens jurídicas que separam
animais e humanos e, consequentemente, reforçando a linha divisória que separa
humanos de pós-humanos. Assim, do ponto de vista da ampliação dos direitos dos
animais, cuja alegre e ruidosa cidadania verde, por meio da ideologia e da
tecnologia ecológicas, se encontra em plena expansão no planeta de Avatar, um
novo sentido de consciência encontrará legitimidade e, por conseguinte,
jurisdição. A milenar distinção entre a lei das selvas e a leia da polis, entre
physis e nomos, tende a se apagar.
Biopolítica
Como toda mutação antropológica, as consequências não são
imediatas. Mas submetidas exponencialmente ao efeito compressor da tecnologia,
talvez hoje elas se sintam com muito mais velocidade do que na lentidão
esmagadora da passagem dos hominídeos ao homo
sapiens. Se no passado da Terra eram necessários até milênios para a
seleção das espécies, quem sabe esse processo hoje em dia leve apenas alguns
séculos? Nesse caso, os legisladores dos esquilos, dos gafanhotos e das alfaces
serão os futuros protetores de nossos tataranetos? Ou viveremos em um mundo de
pós-humanos divididos entre comedores de granola e de bebês? Malgrado o teor
insólito desse tipo de futurologia, é inescapável tecer algumas considerações a
esse respeito. Mais do que isso: torna-se urgente pensar em novas formas de
definição da vida em um sentido político, antes que a vida seja confiscada pelo
poder de quem consiga arbitrariamente defini-la primeiro.
Partindo da hipótese da mudança de demarcações de fronteiras
entre animais, humanos e pós-humanos, perceberemos que ela se dá de modo
unilateral. Se a assimilação recíproca dos humanos e dos animais ocorrerá
certamente em função de ambos serem formas de vida submetidas ao acaso, ou
seja, à natureza, o corte entre os pós-humanos e o conjunto de outras formas de
vida, incluídos os humanos, será autoexcludente, pois colocará em xeque a
própria totalidade da natureza entendida como processo autônomo e
indiferenciado.
Em linhas gerais, do ponto de vista antropológico, as novas
tecnologias gênicas e de próteses neurais, bem como as teorias que, baseadas em
padrões processuais, sustentam uma indiferenciação entre consciência humana e
vitalismo animal, não substituirão o ser humano pela máquina nem o reduzirão a
princípios mecânicos. Esse é apenas o aspecto mais pueril do problema, em
última instância irrelevante, pois em termos cibernéticos uma máquina nunca poderá ser totalmente equivalente
a um aparelho biológico, pois teria, para isso, que reconstituir em si mesma todos
os bilhões de anos que o Universo levou para tramar cada corpo biológico singular.
Tampouco essas tecnologias levarão os humanos reais ao extermínio, como se
espera no desfecho de filmes b de ficção científica.
O que tais tecnologias certamente produzirão a longo, médio
ou até mesmo curto prazos é algo muito mais etéreo, drástico e irreversível: a
extinção do conceito biopolítico de humano.
Este, assimilado à animalidade, terá de se defrontar com uma nova fronteira
opositora: não mais a separação entre humanos e animais, mas sim a separação entre
ambos e os pós-humanos. A película de cisão entre os humanos e os animais tende
a se dissipar em uma via dupla. Esse apagamento ocorrerá tanto por meio da
assimilação dos conceitos biopolíticos de
humano e de animal sob a mesma
categoria genérica de animais ou de natureza, quanto por intermédio das novas
teorias científicas que definem a consciência como campo processual
indiferenciado de informações vitais.
Por seu turno, em sentido inversamente proporcional, uma
enorme muralha invisível se erguerá entre os pós-humanos e os demais seres
vivos, entre sequenciados e não-sequenciados, entre protéticos e
não-protéticos. A reivindicação de maior acesso aos meios biotecnológicos não
será diferente à do proletariado do século XIX por melhores salários. A nova
triagem política do Palácio de Cristal passará necessariamente pela utopia
gênica. A nova cisão planetária ocorrerá entre aqueles que pertencerão às
estufas de conforto e poderão investir suas ações vitais no fundo de commodities da seguridade biológica e
maquínica e aqueles cujas carnes, vitimadas por baixas taxas de imunologia
política, estarão submetidas aos flagelos de velhos mitos, tais como Deus, amor,
esperança, democracia, progresso, liberdade, solidariedade, natureza e acaso, numa
curiosa coexistência excludente entre culturas e mitologias globais nômades e
sedentárias. Mas as consequências mais radicais dessa clivagem ainda estão por
ser pensadas.
O Parque Humano
Em 1999, o filósofo alemão Peter Sloterdijk pronunciou a sua
tão famosa quanto deturpada conferência em Elmau, na Baviera, publicada sob o
nome de Regras para o Parque Humano, e
escandalizou os bons sentimentos da classe intelectual, quase sempre cínica e
sempre média, com a sugestiva proposta da criação de um banco genético humano
mundial. Partindo de uma passagem de Platão, na qual o luminar da filosofia
ocidental propunha que se procedesse a uma distinção entre os homens mais e
menos saudáveis como modo de assegurar a aptidão para a vida política, Sloterdijk
argumenta que o projeto eugênico não é um patrimônio dos sistemas totalitários
do século XX.
Gestada no Gabinete dos Cínicos, ao chamar para si a
experimentação sem limites das possibilidades oferecidas pela natureza, com o
intuito de produzir cada vez mais eficácia e melhora no desempenho da máquina
humana, a modernidade como um todo se funda sobre uma utopia eugênica. Um ser
humano cada vez melhor e cada vez mais plástico é o sonho que unifica todos os
projetos modernizadores, sejam quais forem seus quadrantes ideológicos e
econômicos. Sonho esse que se realiza de modo cada vez mais eficaz e veloz nos
dias de hoje, justamente na época que sepultou as aborrecidas e entediantes utopias
políticas do século XX.
A sugestão de Sloterdijk não só é plausível como perspicaz. Mesmo
com o naufrágio do velho humanismo e das velhas escolas de domesticação humana e mesmo com o fracasso de sua
tentativa de criação de um novo homem por meio das utopias políticas, o projeto
eugênico se encontra de vento em popa. Ele se materializa nas cotações do
mercado gênico mundial e nas bolsas de ações em biótipos, independente da
lamúria das carpideiras marxistas e dos fantasmas humanistas que ainda assolam
o debate, reivindicando uma natureza humana ou uma naturalidade do homem que o
próprio arco histórico humanista moderno, seja ele liberal ou socialista, ajudou
a destruir.
A despeito da falsa
consciência ilustrada dos cínicos, mais preocupados com a nossa dignidade
humana perdida do que os religiosos com a Queda, o processo de sequenciamento
genético se encontra em franca expansão. Assim, nada mais justo do que pensar,
para um futuro próximo, em uma jurisdição para a partilha gênica planetária. Foi
essa a coragem de Sloterdijk ao trazer a questão para o debate e enfrentá-la. Porém,
por conta das contingências e circunstâncias de seu escrito, faltou um passo
decisivo à sua reflexão. Agora, diante dos novos postulados abertos pela defesa
do pós-humano, talvez possamos levar ainda mais longe a sua premissa.
Antropofagia
O filósofo italiano Giorgio Agamben deu uma contribuição
importante para a compreensão da biopolítica global contemporânea com sua obra Homo Sacer. Baseou-se em uma antiga
figura do direito romano que designava um papel bastante estranho para nossa
sensibilidade atual: o homo sacer é, por
definição, matável. Ou seja, não se
inscreve no ordenamento jurídico vigente, podendo ser assassinado sem
comprometimento do praticante do ato. Da fronteira entre estado de direito e
estado de exceção, Agamben depreende a sua teologia do Estado moderno,
sustentando a polêmica tese de que a assimilação da bíos pela zoé, ou seja, da
vida determinada da esfera política
pela esfera indeterminada da vida
natural, é o mecanismo por meio do qual as políticas de extermínio modernas se
fundamentaram e sobre o qual criaram a sua impecável racionalidade.
Se humanos e animais gozam de uma mesma dignidade natural, em
caso de fracasso de políticas ambientais, ambos poderão ser abatidos?
Poderíamos dizer que a inofensiva propaganda dos ecologistas prepara a base
teórica para futuras biopolíticas de extermínio globais? De boas intenções a
natureza está cheia. Sem entrar no mérito de debater a tese de Agamben, ela
levanta um ponto nuclear. Sob essa matável vida
nua, como ele a define, e em um seguimento temporal mais amplo, se oculta
um mecanismo antropológico ainda mais profundo, que lança raízes na própria
origem da cultura humana. Trata-se do bode
expiatório, para me valer aqui da preciosa tese de René Girard, e, em
última instância, do ritual da
antropofagia. Ambos, bode expiatório e antropofagia, desempenham, por sua
vez, uma função essencial no nascimento de algo tão abstrato quanto poderosamente
real: a lei. Afinal, vale lembrar, não é fortuito que a maior parte do
pensamento moderno tenha se ocupado das origens da civilização sempre em um
nexo indissociável e de homologia entre a instauração de uma violência arcaica e
a fundação da lei.
Seja no nível sociológico pensado por Marx, no qual a propriedade
seria fruto de um roubo ancestral e a lei, a codificação ulterior que naturaliza
o roubo como patrimônio. Seja no nível cosmológico de Nietzsche, no qual a lei
nasce como válvula reguladora do ressentimento contra um cosmo adverso. Seja
como lei natural de seleção por extermínio das espécies mais fracas, em Darwin.
Seja como assassinato e canibalização do pai arcaico, que instaura a lei e a
consciência da culpa para Freud. Seja como lei totêmica e interdição do incesto
na passagem da natureza para a cultura, para Lévi-Strauss. Seja a lei tomada como
fundamento da inscrição na cultura e como castração simbólica pela linguagem,
segundo Lacan. Seja a lei entendida como expiação reguladora da violência mimética
contagiosa, neutralizada mediante a descarga exercida sobre o bode expiatório,
como propõe Girard.
Em todos esses sentidos, é quase uma dominante na linhagem
hegemônica do pensamento moderno, definida como hermenêutica da suspeita, entrever o jogo de luz e sombra nas
franjas do real como sendo o verdadeiro cenário no qual se desenrola a aventura
moral humana. Aquém e além desse umbral oscilante de violência e sentido, se
espraia o silêncio indiferente dos espaços infinitos e o mutismo tão harmonioso
quanto insignificante de todas as outras formas de vida. Mais do que a díade
platônica de recurso e pobreza, o ser humano é e sempre foi o acorde consonante
de uma sinfonia feita de carência e fúria, avessa às ordens da natureza. Como
diz Bataille, a cultura humana não nasce da emancipação de uma lei natural, mas
sim de uma transgressão da natureza. A humanidade só começa com os golpes de clava
no corpo morto de um inocente. Exatamente ali onde abruptamente termina a
natureza começa o homem. Essa é a inscrição do homem em sua humanidade. Essa é
a cesura, para usar o conceito de
Sloterdijk.
Novo Ecumenismo
Como disse Vilém Flusser, genial filósofo da linguagem e das
tecnologias, em nosso tempo o sentimento religioso se tornou de novo geral, ou seja, tornou-se de fato e
finalmente católico – e abissal. Pois
ao contrário do projeto histórico cristão, esse novo catolicismo do espírito
religioso reside na partilha de um sentimento universal de falta de fundo. Sim: no limiar do terceiro milênio, a experiência
do Nada talvez seja a única experiência religiosa que nos una como espécie.
Diante dessas constatações, como pensar a passagem do humano ao
pós-humano? Quem nos garante que esse Nada de valor e de sentido não será a
substância transfigurada das religiões do futuro? Em outras palavras, na era
pós-humana, como a humanidade do homem será antropologicamente preservada, de
modo que ela não transborde para a afasia de um além inarticulado nem regrida a
um aquém animal ou vegetal, para lembrar os dois polos da relação
língua-realidade descritos por Flusser? Certamente, ela será salvaguardada por
meio da reativação do ritual do
canibalismo. E aqui não uso o
sentido figurado. Emprego o sentido literal.
A Morte Obsoleta
Obviamente, quando falo em antropofagia, e como disse, não o
faço em sentido simbólico, mas literal, não me refiro à morte, pois a cultura
da morte quase se confunde com a cultura humana. A morte envelheceu depressa
nos últimos séculos. O cultivo da morte e o desenvolvimento das tecnologias da
morte chegaram a seu apogeu de voracidade e refinamento no século XX. O
Iluminismo nada mais foi do que a descoberta do sentido escatológico e da teleologia
épica que a morte pode oferecer, mediante um uso racional das reservas de
violência endógenas dos grupos sociais. E não é por outro motivo que Agamben
define os campos de concentração e os democídios do século XX como uma
realização impecável da lógica e da racionalidade ilustradas, não como uma
excrescência romântica, alheia ao processo modernizador. O totalitarismo é a
realização plena da razão. O extermínio é a obra de arte total do Estado.
Usada racionalmente, a morte é o combustível do progresso.
Porém, no mundo contemporâneo, as tecnologias da morte já foram superadas pela
eficácia produtiva das neuroses de massa. Da mesma forma, as tecnologias da
guerra já foram diluídas no cotidiano armamentista das repartições públicas, na
artilharia da mídia e nas trincheiras proativas das empresas. Nem os atentados
terroristas escapam ao infantilismo da pura agressão e às engrenagens da
cultura do entretenimento. Mesmo com a privatização
da guerra e com a sua transformação em uma prestação de serviços, como mostra o estudo de Rolf Uesseler, a
guerra ainda é muito dispendiosa. Não é mais uma fonte de riqueza
psicopolítica. A escravidão chegou ao fim no século XIX porque os combustíveis
fósseis tornaram-se muito mais baratos e eficazes do que os combustíveis
humanos. Isso não quer dizer que a escravidão tenha se extinguido. Ela apenas
foi democratizada. Passou a ser ministrada em doses homeopáticas. O mercado da
escravidão foi reterritorializado em outros espaços e práticas. Tornou-se um
bem de consumo cotidiano. A forma histórica e clássica da escravidão se
transformou em uma forma obsoleta de violência.
Em breve haverá um parque temático de suicidas? Contra o
parasitismo social oneroso, quem garante que não serão criadas políticas
públicas de incentivo à eutanásia? Estas podem assumir modalidades de
entretenimento pedagógico-cultural, e virarem uma espécie de BBB da morte.
Nessa chave, a defesa do humanismo que vemos em filmes como Vênus Negra é tão edificante quanto tola.
A animalização da negra africana, enjaulada em um picadeiro e noticiada na
seara dos faits divers da Londres do
século XIX, não difere em nada da zoofilia planetária dos animais que, entre
piscinas e bundas, literalmente animam os programas de auditório dos nossos
domingos.
Em última instância, a criação de novas doenças de eficácia
homeopática e de um sistema delivery
de novos vírus sem cura em nível global serão sempre muito mais lucrativos do
que qualquer assassinato. Tudo é uma questão de capitalizarmos bem a violência.
Tudo se reduz a mecanismos de onerações e desonerações que abastecem e
climatizam a biosfera artificial das novas hordas sociais flutuantes. Nelas
navegamos no espaço interior do capital
e habitamos o castelo de conforto planetário. A morte não tem mais para onde
evoluir. Ainda mais na era pós-humana, na qual a utopia da longevidade e o
advento de uma eventual suspensão literal da morte podem se concretizar
significativamente, aumentando a vida útil dos investidores.
Limiar
Mesmo em toda sua majestade, a violência e a morte produzidas
no século XX ainda não tinham transposto o limiar antropológico de sua
redenção, de sua consumação, de seu remate, aquele turning point a partir do qual o que é se transfigura em outro de
si: muda de natureza sem mudar de essência. Isso ocorre porque a violência, com
algumas raras exceções, ainda não ultrapassou a lógica do assassinato. Quer
dizer: ainda não se transformou em canibalismo. Em outras palavras: a inscrição
simbólica dos pós-humanos na clareira da cultura se fará mediante a restauração
da antropofagia. Da mesma forma, tal como se deu a abertura da antropogênese
humana há uns quinhentos mil anos, a futura saída dos humanos da dimensão
puramente animal à qual eles estão sendo reconvertidos só se dará mediante a
nova inscrição de um umbral de violência, ou seja, com uma nova vigência dos
rituais de canibalismo. Somente mediante a devoração literal de seres humanos o
homem persistirá em sua unidade antropológica.
A antropofagia seria o novo locus metafísico planetário e uma nova mitologia política? Será por
meio dela que a morte paradoxalmente renascerá plena de sentido em um horizonte
extinto? Seria a antropofagia a grande interdição não nomeada da civilização e
da cultura humanas, prestes a ser desativada? Será essa a descoberta e a revelação
profética do grande Apocalipse a que se refere Girard? Não uma catástrofe nuclear,
mas o reconhecimento, até à raiz orgânica, da substância traumática de que
somos feitos, misto de mimetismo e violência endêmica? Seria a antropofagia a
experiência radical do mimetismo que funda a cultura humana? O alfa e o ômega
da nossa humanidade? Se as intuições geniais de Oswald de Andrade estão
corretas, a compreensão do nosso futuro milenar dependerá, ironicamente, de uma
melhor compreensão da alegria canibalesca dos tupinambás? Em que sentido
transpor o umbral antropológico da passagem dos humanos aos pós-humanos não
implicaria necessariamente uma atualização de um rito sacrificial? Quem será o anátema
desse novo éon? Arrisco dizer: o homem.
E nesse sentido, como brilhantemente intuiu Girard, o
cristianismo, entendido como metáfora teocríptica, continua sendo sublime e
insuperável, pois já sinaliza, em sua própria estrutura, esse novo ecumenismo
negativo e sacrificial planetário. Porém, hierofania do amor, o cristianismo não
é uma religião que oferece um novo modelo de expiação, mas sim uma fé que
realiza, no nível antropológico, a desativação
mesma do mecanismo sacrifical e da lógica do bode expiatório, como propõe
Girard. Justamente por isso, não atenderá às necessidades literais e
traumáticas que esse transtorno antropológico iminente exige. Tal como o
super-homem de Nietzsche, o cristianismo também não sobreviverá. Ambos
representam figuras hierofânicas da grande era antropocêntrica do mundo, em
cujo limiar de extinção nos encontramos.
Robôs na Alcova
Seria então a antropofagia o maior tabu da civilização?
Provavelmente. Nesse sentido, não deixa de ser significativo que mesmo um autor
como Marquês de Sade, espécie de limite imaginário de transgressão, violência e
infração de rigorosamente todos os códigos, leis e costumes que estruturam a
cultura dita humana, por meio de práticas que vão das mutilações genitais e do
incesto à coprofagia e ao assassinato, também tenha seus tabus. Dentre eles, a interdição
explícita da autofagia e a quase inexistência de antropofagia em suas
divertidas narrativas.
A obra de Sade é a versão pornográfica do homem-máquina de La
Mettrie. Seus corpos-engrenagens têm o único intuito de transformar orifícios e
protuberâncias em uma mecânica de válvulas e alavancas de prazer. O imaginário
sádico é um onanismo coletivo. É uma festa fecal da incomunicabilidade
ontológica. É um jardim da infância da univocidade. Porque o sadismo nada mais
é do que a extinção de toda a dimensão orgânica do gozo. Nesse sentido, é
extremamente conservador, pois consiste em uma interdição radical da
experiência orgânica e, portanto, agônica e antagônica, do prazer, entendido
como plena impotência do sujeito perante o objeto. Vive majestosamente em sua
ilusão ejaculatória de um protagonismo sem rival. É justamente por isso que os
personagens se fodem, mas não se amam e tampouco se comem – literalmente. Há
transgressão, mas não há antropofagia. Afinal, robôs, mesmo pornográficos, não
são bons para a digestão. Tudo isso demonstra que, no fundo, apesar de seus
devaneios infanto-juvenis, Sade não passava de um bom e velho moralista
francês.
Se aparentemente ridicularizo o divino marquês, faço-o apenas
para demonstrar que aos olhos da lógica pós-humana ele não passará de uma
inofensiva peça de antiquário. Mais que isso: aos olhos pós-humanos, haveria um
elo subterrâneo profundo entre as religiões reveladas e soteriológicas universais
e a obra de Sade. Tal como as primeiras constituem um corpus doutrinário em louvor a Deus, a obra do marquês é uma Bíblia
de louvor à Natureza. Ambos são motores metafísicos, simbólicos e
antropológicos de humanização e de animalização, respectivamente. Nesse
sentido, tanto os escritos religiosos quanto os sádicos são manuais pedagógicos
de produção de inválidos, sejam eles filhos do Deus-Acaso ou da Lei-Natureza.
Da Ontologia à
Odontologia
Em linhas gerais, se o processo de hominização levou milhões
de anos para se cumprir até o estágio atual, do ponto de vista lógico tudo
indica que ele precisará de um período de vigência planetária do canibalismo
para subsistir, caso contrário entrará em colapso e a hominização será
abortada. Tal como o trauma inaugural, ou seja, o fenômeno da neotenia, do nascimento prematuro, criou
o enclave biológico que eviscerou o ser humano dos hominídeos, gerando duas
espécies, o novo umbral antropológico também exige um hiato, uma passagem que
não será meramente mítica, mas material, literal.
As fronteiras biotecnológicas podem fornecer os liames
físicos de distinção das espécies, mas não os culturais. O corte antropológico que
determinará a cesura entre humanos e pós-humanos se dará quando os pós-humanos refundarem
atavicamente o assassinato arcaico, ou seja, quando vitimados pela violência
intestina e incontrolável dos embates entre grupos, canibalizarem os humanos de
outrora. Por seu turno, o escape e a passagem dos humanos animalizados à reconquista
de sua humanidade perdida certamente passará também pela reedição do ritual de
canibalismo, de preferência dos inimigos, dos pós-humanos, cujas carnes, se
ainda existirem, serão as mais tenras da Terra. Lembrando a fina ironia de
Oswald de Andrade, a saída para a civilização não será ontológica, mas odontológica.
Relatório para a
Academia
Kafka compreendeu como ninguém o biopoder do mundo
contemporâneo. Mais que isso: ele é o profeta das tecnologias de poder e da
biopolítica mundial que está por vir. Em seu conhecido conto, um chimpanzé fala
de seu passado simiesco para uma Academia de Ciência. Por ironia de segundo
grau, ao escrever este texto, coloco-me, diante de vocês, no lugar desse erudito
chimpanzé. A paródia de Kafka é uma inversão brilhante da teleologia da história
natural. A ciência é vista como o macaquear pré-histórico de uma humanidade
ainda por vir, como uma anamnese prospectiva dos mais fracos que serão
futuramente vencidos pela seleção dos mais fortes, engendrados pela própria
ciência. Seleção esta, no caso, não mais natural, mas artificial, feita mediante
a incisão biotecnológica que separa os sequenciados dos não-sequenciados, os
humanos dos pós-humanos.
Porém, como diz o poeta: de tudo fica um pouco. Às vezes uma
flor. Às vezes um rato. Essa ancestralidade incrustada nos moldes pós-humanos
precisará de uma resolução simbólica. É difícil conviver com esses fragmentos
humanos que se alojam na plasticidade de um corpo em quase tudo puro, edênico. Tal
como os neandertais deixaram vestígios físicos no homo sapiens, paradoxal e simultaneamente desapareceram e se
preservaram, a passagem do humano ao pós-humano não será em vão. Algo do furor
ancestral e da rebelião cósmica contra as fagulhas de um passado perdido, porém
inacessível, tenderá a se manifestar da maneira mais brutal possível nesse
seres sublimes de amianto e luz. E será assim que o pós-humano, ao reeditar o
assassinato do pai arcaico das hordas paleolíticas de hominídeos, se humanizará
mediante o canibalismo.
Nesse sentido, por mais aberrante que isso possa parecer, podemos
nos perguntar se seria o caso de os intelectuais, as autoridades, os juristas e
toda a sociedade começarem a pensar em uma jurisdição planetária e em uma
organização biopolítica realista para a circulação, o abate e o consumo de
carne humana? Por maior que seja a falsa moral e a real hipocrisia de todos os
que queiram escamotear a irreversibilidade desse processo, não seria factível
considerar a sua pertinência? Se podemos racionalmente pesar e pensar essa
sucessão de inscrições de absurdo, beleza e desgraça que constituiu a nossa
condição, desde os primatas até nós, por que não a pensarmos também de nós aos
nossos futuros herdeiros? Talvez eles não estejam tão distantes quanto
imaginamos.
Uma Nova Moral
No século XVII, o moralista Jonathan Swift escreveu o libelo
satírico A Modest Propose, no qual
propõe que se tirasse uma fatia da nádega das crianças mais rechonchudas para
acabar com a fome na Irlanda. Talvez ele não soubesse quão profético fora seu
riso. E quão saborosa e impiedosa será a gargalhada daqueles que, num futuro
distante, estando do lado dos devoradores e não dos devorados, compreenderão alegre
e plenamente a sua alegoria.
Swift e Kafka apenas anteviram os mecanismos antropológicos
que fazem de mim, de você e de todos nós os primatas de um futuro vazio, avesso
a qualquer ilusão, mas não isento de arrependimento. Porque a humanidade do
homem só se extinguirá o dia em que não houver arrependimento. Para ela não se
extinguir, seremos sempre e cada vez mais capazes de cometer transgressões e infrações
cada vez mais graves. Ou cada vez mais banais, como um dia será comer carne
humana.
Afinal, possivelmente ela será mais natural e, portanto, na
falta de algo mais saudável, os vegetarianos podem preferi-la aos legumes transgênicos.
Se ocorrer de ela ser mais barata, então teremos de fato a universalização
cabal de seu consumo. A propósito, na culinária, como em tudo, os chineses
estão na vanguarda. Os seus acepipes e manjares feitos da carne tenra de nossos
arcaicos irmãos macacos podem no final das contas servir de atenuante e
lenitivo para a consciência antropológica e humanista do futuro.
Fim e Começo
A origem da vida tem cerca de sete bilhões de anos. O
pré-cambriano, período de formação geológica dos unicelulares, dos minérios e
dos vegetais, ocupa 82% do tempo de vida da Terra. Nós, incluídas todas as
formas de hominídeos anteriores ao homo
sapiens, encenamos nossa farsa há um tempo equivalente a 1% do tempo da
vida geológica. Mais que isso: do montante deste 1% de vida hominídea, passamos
99% nas savanas africanas e estepes, como caçadores, isto é, como predadores.
Ou seja: apenas 1% do 1% da vida hominídea constitui isto que chamamos
gloriosamente de civilização, que tem dez mil anos. Diante desses números, o
leitor inteligente deve ter esboçado um sorriso constrangido, amarelo e
terrível. Compreendeu o que quero dizer. No dia em que um homem do futuro, o último homem de que fala Nietzsche,
canibalizar sem remorso aquilo que ele fora e não o é mais, é sinal de que,
além e aquém do humano, a humanidade se extinguiu.
A sua assimilação cultural e orgânica ocorrerá sem fraturas
e, portanto, sem saltos. Ou seja: ele será dotado do mesmo processo
fotossintético das algas e da mesma indiferença e estupidez dos unicelulares.
Ter-se-á rompido a cadeia de ouro de Homero, o invisível fio que conecta a
multiplicidade infinita da aventura humana sobre a Terra. Por maior que seja
seu estado de harmonia com a natureza, filosoficamente ele estará mais próximo
de uma ameba ou de um protozoário do que de um humano, por mais que a biologia e
os anatomistas queiram em vão provar o contrário. Haverá hominídeos, mas não
haverá humanidade, nem em humanos, nem em animais, nem em pós-humanos.
Eclesiastes
Porém, até isso é digno de ser relativizado. Pois se tal
extinção pode representar um grande drama para as boas almas e para as
consciências antropocêntricas, aquelas que acreditam que sejamos algo mais do
que um belo caniço pensante, ela é absolutamente irrelevante para o fenômeno da
vida. Voltando a Nietzsche: um dia, em um lugar chamado Terra, um ser chamado
homem inventou uma coisa chamada conhecimento. Como arremata o filósofo: esse
foi o acontecimento mais arrogante da história do Universo. O mesmo pode-se
dizer sobre o dia em que, em eras longínquas de um passado pós-glacial, em uma
atitude simiesca, um macaco se dirigiu às águas translúcidas de um rio e, nele
se espelhando, se chamou de homem.

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