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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A ORIGEM





A origem é uma ideia que obseda os seres humanos. E quando digo obseda, creio que o leitor sinta aquele misto de estupor, graça e incômodo que toda palavra anacrônica revela. E o faz não por ela ser nova, mas justamente por ela ser antiga a perder de vista – original. Eis o óbice da questão. Pascal dizia que se formos rastrear a origem de nossas ideias, teríamos que o fazer ao infinito. E ao fim deste percurso infinito, para a frustração dos obsequiosos e tenazes leitores, como o próprio truísmo da frase indica, não chegaríamos a uma eventual ideia original. Chegaríamos tão somente ao Nada. É por isso que o grande filósofo, não por acaso também matemático, vai criticar esse modo de raciocínio demonstrativo, que ele chama de “geométrico”.
Porém, não só de geometria vive a origem. Ela está incrustada onde menos esperamos. À espreita, onde sequer sonhamos. De tocaia, aguardando nosso primeiro cochilo para dar o bote. Pois vivemos constantemente em busca de origens: nossa condição atual, o desarranjo familiar, a decadência do casamento, a situação do país, um tumor, um problema respiratório, uma desilusão. Onde é que começou tudo isso que eu nem percebi? Sim. É essa incapacidade de perceber os começos que torna a origem mais misteriosa. Somos sensíveis ao fim. Sentimos o fim com a potência de um recém-nascido sugando sua primeira lufada de ar. Mas o fazemos justamente porque não percebemos algo essencial: a origem do fim. Quando vimos: ei-lo. O fim chegou. Instalou-se. Consumou. Deu cabo, como se costuma dizer. A uma fase. A um sentimento. A um projeto. A uma vida. Como diria Santo Agostinho em relação ao tempo: se não me perguntam o que é, sei. Se me perguntam, deixo de saber. O que passou, deixou de ser. O que não veio, ainda não é. O que é então o tempo? De onde vem a origem?
Por conta dessas sutilezas incômodas, a origem deu alguns excelentes assuntos filosóficos e científicos: origem do totalitarismo (Hannah Arendt), origem das línguas (Rousseau), origem da propriedade privada (Marx e Engels), origem das espécies (Darwin). O nosso clássico Raízes do Brasil não faz nada mais do que mascarar uma romântica defesa das origens, inspirada no organicismo e no vitalismo alemães, como demonstrou meu amigo historiador João Kennedy Eugênio, sob um termo ainda mais comprometedor: raiz. Essa esperteza cordial de Sergio Buarque de Holanda se chama: varrer a origem para debaixo do matinho. Mas não adianta. A origem volta. Sempre. A origem é indefectível. Indeclinável.
A origem foi o cerne da clivagem de poder durante muitos milênios, se pensarmos nas linhagens e nas dinastias reais. Bem como é o cerne da cultura patriarcal, dos patriarcas israelitas bíblicos à figura do pater familia, que o gênio Gilberto Freyre identificou como sendo o motor civilizacional dos trópicos, em especial do Brasil. Não tem como perder a vigência do dia para a noite. Tanto que muitos acreditam ingenuamente nas forças do poder popular, do século XVIII até hoje. Mas quando se fala em “origem popular”, em “origem operária”, em “origem rica”, em “origem humilde”, não estamos fazendo nada mais do que criar condições eletivas e morais para validar atos e pessoas como dignos e indignos. Apenas o fazemos não mais a partir de valores aristocráticos, mas mercadológicos e, em último caso, demagógicos.
Aliás, o marxismo foi e continua sendo profético e irretocável em relação a muitos aspetos estruturais de nossa realidade. Mas um dos pontos frágeis da teoria marxista é a absoluta insignificância que a origem individual desempenha em seu arcabouço. Trata-se de uma teoria da produção da riqueza e das relações de produção, mas que ignora quase sumariamente um dos corações do poder: a geração da vida. Ocupa-se da escola, da empresa, do hospital, da fábrica, dos manicômios, das cadeias, das mercadorias, do preço, ou seja, de todas as esferas da vida social e econômica. Mas não se ocupa do lar. Teoriza sobre o Estado e sobre o Capital. Mas ignora o ventre e a maternidade. Ao flagrar as relações de poder na dinâmica das relações de troca, trabalho, reificação e mais-valia, durante muito tempo a teoria marxista esqueceu de vislumbrar a mais óbvia de todas as produções: a de seres humanos.
Ao assimilar todos os dados da realidade como dados de uma construção histórica objetiva, e ao propor a noção de privacidade como a ilusão burguesa com a qual os senhores se blindam e ocultam os anteparos infraestruturais que lhes legitimam o exercício do poder, muitas linhas do marxismo deixaram em boa medida uma lacuna considerável em relação a tudo o que concerne à intimidade, ao lar, à vida interior, à gestação, ou seja, à geração da vida ulteriormente confiscável pelas cadeias produtivas. Não por acaso, a biotecnologia será o golpe mais devastador sofrido pela teoria marxista. Isso porque a biotecnologia consiste basicamente em um deslocamento radical nas teorias do poder e em uma translação da era política à era biopolítica. A partir dela, o poder vai migrar das relações de produção entre seres humanos para as relações de produção de seres humanos.
Mas além desses rigorismos, a ênfase na ideia de origem também originou (perdão pelo cacoete pouco original) algumas boutades curiosas, tais como: origem dos nossos hábitos à mesa, origem da alimentação, origem da troca de cartas, origem funcional dos polegares, origem dos sutiãs. Peças de mobiliário muito bem manejadas em um ensaio de Montaigne, La Boétie ou Hume, mas de gosto duvidoso quando esmiuçadas arqueologicamente. E ao falar em origem, impossível não pensar no seu símbolo máximo: a criança. A invenção da infância é uma das invenções de origens mais originais da modernidade. De um adulto pequeno, de um homúnculo com desenvoltura, de um anão passível de crescimento, nasce uma nova luz: a criança. Com ela, todo um vocabulário, um repertório, um imaginário, toda a diversão e todo aborrecimento do mundo, contido nesse pequeno novo ser, tão significante quanto inofensivo.
Claro. Para todos os povos a sua própria origem é o que há de mais elevado sobre a face da Terra. Dos lapões aos escandinavos, dos tapajós aos texanos, dos mineiros aos haitianos, dos tchecos aos suíços, dos nepaleses aos sul-africanos, dos bororos aos esquimós. Todo povo tem o seu poeta e o seu historiador oficiais, que narram a saga de martírio, glória e grandeza enfrentada por esse mesmo povo – em suas origens. Ao contrário do que se idealiza, essas origens tampouco são populares. Mas um fino artifício na tessitura de poder tramada pelos doutos e ilustres. Tudo não passa daquilo que o grande filósofo italiano Giambattista Vico chamou de boria dei dotti (vaidade dos doutos).
Todos querem ser a quintessência da humanidade. E o conseguem ao contar com a quintessência dispersa de si mesmos tanto em seus antepassados quanto em seus consanguíneos. Por isso, inventam origens. Provavelmente não houve grandeza alguma. Mas apenas uma luta pérfida por sobrevivência. Como a origem se perdeu, todos sabem que nada foi dessa forma. Mas agem como se fosse. Ocultam a verdade com uma dupla mentira. Felizmente. Parafraseando Oscar Wilde: o que seria do mundo sem a mentira? Nasce daí o mito. Como diz Eliade, os “mitos de origem” são as mais poderosas forças de coesão social para os povos tradicionais. Pois mexem são a espinha dorsal de sua autoimagem. Diríamos hoje: de sua autoestima. Ou seja, lidam com o que há de mais poderoso e devastador no ser humano: a vaidade.
Da origem humana à origem do universo, da origem dos povos à nossa origem divina, abre-se um abismo. Sim. Impossível acessá-las. Sabemos. Mas diariamente não temos pudor algum em nomear nossos antepassados de Órion, nossos ancestrais celestiais, nossos irmãos símios, nossa família animal, nossos avôs biológicos e nossos pais espirituais. Seja descendendo das estrelas (como queria Platão), seja de Deus (como querem os religiosos), seja do macaco (como queria Darwin) ou das bactérias (como rezam os geneticistas), o homem respira cotidianamente uma compulsão pela origem. Vive de sua fabricação. O dia que a usina da origem pifar, estaremos perdidos. Será de fato a morte. Não do indivíduo singular. Mas da espécie. Porque o homem, talvez por ser o mais mentiroso e mais mimético de todos os animais, por pura sobrevivência, teve que criar para si a maior de todas as mentiras jamais criada: a ideia de que existe uma origem. E que podemos vê-la. Tocá-la. Narrá-la. Vivê-la.
O Ocidente se enganou durante milênios atribuindo à vida após a morte a chave do segredo e a explicação final da nossa saga de miséria e esplendor sobre a Terra. Muitos orientais, especialmente algumas religiões indianas, são mais discretos e mais ambiciosos em sua formulação. Sabem que o grande enigma não está depois da morte, algo positivamente impassível de verificação – mas antes da vida. Não se trata de sabermos para onde vamos, mas sim de onde viemos. Ou melhor: como e quando viemos a ser. É no que fomos e não no que seremos que reside a explicação última do que somos.
Essa explicação pode ser apenas mais uma ficção útil dentre tantas outras ficções. Mas tem uma vantagem. A ilusão de um começo, em sua dupla irrealidade, acaba sendo ainda mais irreal e impalpável do que as ilusões do fim. E por isso, paradoxalmente, mais verdadeira. O além-vida pode ser mensurado em termos hipotéticos. Justamente por isso, está sujeito a erro. O aquém-vida só pode ser descrito em termos puramente ficcionais. E, exatamente por isso, pode ser mais ou menos verossímil, mas nunca errado. A odisseia reencarnacionista, ao conceber o real como pura ficcionalização, acaba nos concedendo uma lucidez mais penetrante do que todas as mitologias que projetam a nossa eternidade em um plano futuro, por meio daquela “colonização do além”, bem lembrada por Le Goff.
Trata-se de dois regimes distintos de verdade. Como ambos são umbrais inacessíveis, entre a hipoteca do futuro e ficcionalização da origem, esta é muito mais sublime do que aquela. Na primeira, projetamos os dados da realidade em um futuro improvável, no qual este mundo que me circunda por fim vai se realizar, ou seja, finalmente vai ser o que é, fato sobre o qual repousa uma evidente tautologia. Na segunda, traduzimos a origem inacessível do mundo na forma mesma deste mundo que eu e você, leitor, habitamos, neste exato momento. A primeira vai da realidade presente à ficção futura, ou seja, torna a vida cada vez mais evanescente. Ao passo que a segunda vai do passado irreal ao presente tangível. Assim, ao conferir uma explicação ficcional à realidade, torna a ficção cada vez mais imperativa e a realidade cada vez mais espessa.
Ver o mundo como um teatro no qual as origens intangíveis de nossas vidas se desfiam a nossos olhos como um novelo é mais sublime do que projetar estas nossas vidas concretas em um futuro construído hipoteticamente a partir de uma realidade cujos dados e cuja origem desconhecemos. Tal como aquela peça de teatro à qual entregamos nossa vida no intervalo de duas horas, iluminar o caráter arbitrário, casual, gratuito e fictício que subjaz a toda origem: talvez seja exatamente esta a lucidez que falta a todos os adoradores do futuro, seja este futuro utópico ou sobrenatural. É também o que falta a todos os inventores de origens que não se dão conta do quão artificial é a sua invenção. Pois se os adoradores do futuro invariavelmente se frustrarão com o presente que os aguarda, os inventores de origens, no fundo, sempre acabam acreditando nas mentiras que um dia contaram para si. 

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