
A origem
é uma ideia que obseda os seres humanos. E quando digo obseda, creio que o leitor sinta aquele misto de estupor, graça e
incômodo que toda palavra anacrônica revela. E o faz não por ela ser nova, mas
justamente por ela ser antiga a perder de vista – original. Eis o óbice da
questão. Pascal dizia que se formos rastrear a origem de nossas ideias,
teríamos que o fazer ao infinito. E ao fim deste percurso infinito, para a
frustração dos obsequiosos e tenazes leitores, como o próprio truísmo da frase
indica, não chegaríamos a uma eventual ideia original. Chegaríamos tão somente
ao Nada. É por isso que o grande filósofo, não por acaso também matemático, vai
criticar esse modo de raciocínio demonstrativo, que ele chama de “geométrico”.
Porém,
não só de geometria vive a origem. Ela está incrustada onde menos esperamos. À
espreita, onde sequer sonhamos. De tocaia, aguardando nosso primeiro cochilo
para dar o bote. Pois vivemos constantemente em busca de origens: nossa
condição atual, o desarranjo familiar, a decadência do casamento, a situação do
país, um tumor, um problema respiratório, uma desilusão. Onde é que começou
tudo isso que eu nem percebi? Sim. É essa incapacidade de perceber os começos
que torna a origem mais misteriosa. Somos sensíveis ao fim. Sentimos o fim com
a potência de um recém-nascido sugando sua primeira lufada de ar. Mas o fazemos
justamente porque não percebemos algo essencial: a origem do fim. Quando vimos:
ei-lo. O fim chegou. Instalou-se. Consumou. Deu cabo, como se costuma dizer. A
uma fase. A um sentimento. A um projeto. A uma vida. Como diria Santo Agostinho
em relação ao tempo: se não me perguntam o que é, sei. Se me perguntam, deixo
de saber. O que passou, deixou de ser. O que não veio, ainda não é. O que é
então o tempo? De onde vem a origem?
Por conta
dessas sutilezas incômodas, a origem deu alguns excelentes assuntos filosóficos
e científicos: origem do totalitarismo (Hannah Arendt), origem das línguas
(Rousseau), origem da propriedade privada (Marx e Engels), origem das espécies
(Darwin). O nosso clássico Raízes do
Brasil não faz nada mais do que mascarar uma romântica defesa das origens,
inspirada no organicismo e no vitalismo alemães, como demonstrou meu amigo
historiador João Kennedy Eugênio, sob um termo ainda mais comprometedor: raiz. Essa
esperteza cordial de Sergio Buarque de Holanda se chama: varrer a origem para debaixo do matinho. Mas não
adianta. A origem volta. Sempre. A origem é indefectível. Indeclinável.
A origem
foi o cerne da clivagem de poder durante muitos milênios, se pensarmos nas
linhagens e nas dinastias reais. Bem como é o cerne da cultura patriarcal, dos
patriarcas israelitas bíblicos à figura do pater
familia, que o gênio Gilberto Freyre identificou como sendo o motor
civilizacional dos trópicos, em especial do Brasil. Não tem como perder a
vigência do dia para a noite. Tanto que muitos acreditam ingenuamente nas
forças do poder popular, do século XVIII até hoje. Mas quando se fala em
“origem popular”, em “origem operária”, em “origem rica”, em “origem humilde”,
não estamos fazendo nada mais do que criar condições eletivas e morais para
validar atos e pessoas como dignos e indignos. Apenas o fazemos não mais a
partir de valores aristocráticos, mas mercadológicos e, em último caso,
demagógicos.
Aliás, o
marxismo foi e continua sendo profético e irretocável em relação a muitos
aspetos estruturais de nossa realidade. Mas um dos pontos frágeis da teoria
marxista é a absoluta insignificância que a origem individual desempenha em seu
arcabouço. Trata-se de uma teoria da produção da riqueza e das relações de
produção, mas que ignora quase sumariamente um dos corações do poder: a geração
da vida. Ocupa-se da escola, da empresa, do hospital, da fábrica, dos
manicômios, das cadeias, das mercadorias, do preço, ou seja, de todas as
esferas da vida social e econômica. Mas não se ocupa do lar. Teoriza sobre o
Estado e sobre o Capital. Mas ignora o ventre e a maternidade. Ao flagrar as
relações de poder na dinâmica das relações de troca, trabalho, reificação e mais-valia,
durante muito tempo a teoria marxista esqueceu de vislumbrar a mais óbvia de
todas as produções: a de seres humanos.
Ao
assimilar todos os dados da realidade como dados de uma construção histórica
objetiva, e ao propor a noção de privacidade
como a ilusão burguesa com a qual os senhores se blindam e ocultam os
anteparos infraestruturais que lhes legitimam o exercício do poder, muitas
linhas do marxismo deixaram em boa medida uma lacuna considerável em relação a tudo o que
concerne à intimidade, ao lar, à vida interior, à gestação, ou seja, à geração
da vida ulteriormente confiscável pelas cadeias produtivas. Não por acaso, a
biotecnologia será o golpe mais devastador sofrido pela teoria marxista. Isso
porque a biotecnologia consiste basicamente em um deslocamento radical nas
teorias do poder e em uma translação da era política à era biopolítica. A
partir dela, o poder vai migrar das relações de produção entre seres humanos para as relações de produção de seres humanos.
Mas além
desses rigorismos, a ênfase na ideia de origem também originou (perdão pelo
cacoete pouco original) algumas boutades
curiosas, tais como: origem dos nossos hábitos à mesa, origem da alimentação, origem
da troca de cartas, origem funcional dos polegares, origem dos sutiãs. Peças de
mobiliário muito bem manejadas em um ensaio de Montaigne, La Boétie ou Hume, mas
de gosto duvidoso quando esmiuçadas arqueologicamente. E ao falar em origem,
impossível não pensar no seu símbolo máximo: a criança. A invenção da infância
é uma das invenções de origens mais originais da modernidade. De um adulto
pequeno, de um homúnculo com desenvoltura, de um anão passível de crescimento,
nasce uma nova luz: a criança. Com ela, todo um vocabulário, um repertório, um imaginário,
toda a diversão e todo aborrecimento do mundo, contido nesse pequeno novo ser,
tão significante quanto inofensivo.
Claro. Para
todos os povos a sua própria origem é o que há de mais elevado sobre a face da
Terra. Dos lapões aos escandinavos, dos tapajós aos texanos, dos mineiros aos
haitianos, dos tchecos aos suíços, dos nepaleses aos sul-africanos, dos bororos
aos esquimós. Todo povo tem o seu poeta e o seu historiador oficiais, que
narram a saga de martírio, glória e grandeza enfrentada por esse mesmo povo – em
suas origens. Ao contrário do que se idealiza, essas origens tampouco são
populares. Mas um fino artifício na tessitura de poder tramada pelos doutos e ilustres.
Tudo não passa daquilo que o grande filósofo italiano Giambattista Vico chamou
de boria dei dotti (vaidade dos
doutos).
Todos
querem ser a quintessência da humanidade. E o conseguem ao contar com a
quintessência dispersa de si mesmos tanto em seus antepassados quanto em seus
consanguíneos. Por isso, inventam origens. Provavelmente não houve grandeza
alguma. Mas apenas uma luta pérfida por sobrevivência. Como a origem se perdeu,
todos sabem que nada foi dessa forma. Mas agem como se fosse. Ocultam a verdade com uma dupla mentira. Felizmente.
Parafraseando Oscar Wilde: o que seria do mundo sem a mentira? Nasce daí o
mito. Como diz Eliade, os “mitos de origem” são as mais poderosas forças de
coesão social para os povos tradicionais. Pois mexem são a espinha dorsal de
sua autoimagem. Diríamos hoje: de sua autoestima. Ou seja, lidam com o que há
de mais poderoso e devastador no ser humano: a vaidade.
Da origem
humana à origem do universo, da origem dos povos à nossa origem divina, abre-se
um abismo. Sim. Impossível acessá-las. Sabemos. Mas diariamente não temos pudor
algum em nomear nossos antepassados de Órion, nossos ancestrais celestiais,
nossos irmãos símios, nossa família animal, nossos avôs biológicos e nossos
pais espirituais. Seja descendendo das estrelas (como queria Platão), seja de
Deus (como querem os religiosos), seja do macaco (como queria Darwin) ou das
bactérias (como rezam os geneticistas), o homem respira cotidianamente uma
compulsão pela origem. Vive de sua fabricação. O dia que a usina da origem
pifar, estaremos perdidos. Será de fato a morte. Não do indivíduo singular. Mas
da espécie. Porque o homem, talvez por ser o mais mentiroso e mais mimético de
todos os animais, por pura sobrevivência, teve que criar para si a maior de
todas as mentiras jamais criada: a ideia de que existe uma origem. E que
podemos vê-la. Tocá-la. Narrá-la. Vivê-la.
O
Ocidente se enganou durante milênios atribuindo à vida após a morte a chave do
segredo e a explicação final da nossa saga de miséria e esplendor sobre a
Terra. Muitos orientais, especialmente algumas religiões indianas, são mais
discretos e mais ambiciosos em sua formulação. Sabem que o grande enigma não
está depois da morte, algo positivamente impassível de verificação – mas antes
da vida. Não se trata de sabermos para onde vamos, mas sim de onde viemos. Ou
melhor: como e quando viemos a ser. É no que fomos e não no que seremos que
reside a explicação última do que somos.
Essa
explicação pode ser apenas mais uma ficção útil dentre tantas outras ficções.
Mas tem uma vantagem. A ilusão de um começo, em sua dupla irrealidade, acaba
sendo ainda mais irreal e impalpável do que as ilusões do fim. E por isso,
paradoxalmente, mais verdadeira. O além-vida pode ser mensurado em termos
hipotéticos. Justamente por isso, está sujeito a erro. O aquém-vida só pode ser
descrito em termos puramente ficcionais. E, exatamente por isso, pode ser mais
ou menos verossímil, mas nunca errado. A odisseia reencarnacionista, ao
conceber o real como pura ficcionalização, acaba nos concedendo uma lucidez
mais penetrante do que todas as mitologias que projetam a nossa eternidade em
um plano futuro, por meio daquela “colonização do além”, bem lembrada por Le
Goff.
Trata-se
de dois regimes distintos de verdade. Como ambos são umbrais inacessíveis,
entre a hipoteca do futuro e ficcionalização da origem, esta é muito mais
sublime do que aquela. Na primeira, projetamos os dados da realidade em um
futuro improvável, no qual este mundo que me circunda por fim vai se realizar,
ou seja, finalmente vai ser o que é, fato sobre o qual repousa uma evidente tautologia.
Na segunda, traduzimos a origem inacessível do mundo na forma mesma deste mundo
que eu e você, leitor, habitamos, neste exato momento. A primeira vai da
realidade presente à ficção futura, ou seja, torna a vida cada vez mais
evanescente. Ao passo que a segunda vai do passado irreal ao presente tangível.
Assim, ao conferir uma explicação ficcional à realidade, torna a ficção cada vez
mais imperativa e a realidade cada vez mais espessa.
Ver o
mundo como um teatro no qual as origens intangíveis de nossas vidas se desfiam
a nossos olhos como um novelo é mais sublime do que projetar estas nossas vidas
concretas em um futuro construído hipoteticamente a partir de uma realidade
cujos dados e cuja origem desconhecemos. Tal como aquela peça de teatro à qual
entregamos nossa vida no intervalo de duas horas, iluminar o caráter arbitrário,
casual, gratuito e fictício que subjaz a toda origem: talvez seja exatamente
esta a lucidez que falta a todos os adoradores do futuro, seja este futuro
utópico ou sobrenatural. É também o que falta a todos os inventores de origens
que não se dão conta do quão artificial é a sua invenção. Pois se os adoradores
do futuro invariavelmente se frustrarão com o presente que os aguarda, os
inventores de origens, no fundo, sempre acabam acreditando nas mentiras que um
dia contaram para si.
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